quarta-feira, 25 de março de 2020

Staccato



Foi aqui, debaixo daquele jambeiro
no cantinho deste quintal.

Mãos quentes invadiram meu corpo
por debaixo do avental.

Na pele crispada, desejos da alma, coisas de coração.

No silêncio total, apenas o Staccato
do delírio corporal.

Apertava, arranhava, beijava
como se fosse o prazer de um adeus final.

Como um beijo ardente, suas falas na minha várzea inundada.
Voz ausente, carne presente.

Paz alcançada.

Foi bem debaixo daquele jambeiro o teatro da performance
de nosso Staccato orquestral.


Foto T.Abritta.  



quarta-feira, 4 de março de 2020

Tomara que caia.



Você sabia que o exagerado antimachismo quer banir o nome da blusa "tomara que caia"?  Agora querem que seja simplesmente "blusa sem alça" em nome do combate ao sexismo.


Culpar a singela expressão pelos constrangimentos femininos, soa como puritanismo, tão em voga atualmente.  As mulheres querem é respeito, valorização profissional e condições dignas de vida. 

A lembrança das alças, imaginárias ou não, são resquícios de um falso moralismo que tenta desesperadamente cobrir o que está maravilhosamente livre. 
          Tomara que caia e que os poetas possam continuar cantando:

...nas pintinhas que se assanham
no generoso decote de uma mulher
tal tremeluzentes estrelinhas
em um céu diurno







Acontece, né?



          Estava atrasada. Roupas sobre a cama. Saia, blusa, calcinha, sutiã. Rápido banho, ligeira maquiagem, escova nos cabelos. Desceu as escadas correndo, mochila nas costas, celular na mão.
          E o sutiã? Não dá tempo de pegar. Correu para o quintal e pegou aquele já seco no varal. O cachorro, todo alegre, quis brincar com a peça na mão. Corre para lá, para cá e o sutiã todo enlameado.
          O elegante blazer cobrirá os peitos a bambolear.
          Uma chuva fina, com o vento a soprar, começou a cair. A ventania virou a sombrinha para trás. Uma lufada levantou sua saia.
          O vento subiu entre as pernas, congelando o bumbum e tudo mais.
          A calcinha estava lá na cama, esquecida para trás.
          Tomou um Curaçau Blue e ficou em paz.

E o carnaval acabou...



Vamos dançar na chuva
Roupas molhadas
Nudez anunciada
Desejos assanhados
Um pequeno nada
Apenas o som de uma toada.