segunda-feira, 27 de abril de 2020

Toda a nudez da artista descalça




          Hoje terminei minha jornada, caminhando entre letras, palavras e dezenas de textos do livro “Toda a nudez da artista descalça” da escritora, artista plástica e fotógrafa Graça Campos. 
          A publicação tem uma concepção gráfica primorosa, apresentando nas suas páginas iniciais e finais, belas imagens fotográficas da autora, em cores ou no preto e branco da nostalgia, associadas a fragmentos de seus poemas.  A capa do livro é ilustrada por uma pintura com viés surrealista, com mesmo tema do título do livro.  Na contra capa, a foto de Graça Campos em seu ofício de pintora.
          Nos caminhos pelas páginas desta obra, bordados com poesia e tanto amor, fui sendo levado pelas mãos da literatura. 
Em cada suspiro nesta rota poética, um encanto.  
          Dialoguei com textos intimistas, outros mais confessionais, bem como escritos reflexivos com tendências filosóficas.  Mas sempre com forte carga lírica.  Me encantei com a profusão de gêneros literários, indo da poesia, passando pela prosa poética, crônicas e ensaios. 
Em outras paradas desta jornada, os grandes temas da literatura:  O Desconcerto do Mundo, O Fatalismo, As Perdas, O Tempo e suas Transformações, A Razão e o Amor, Hábitos e Costumes, O Prazer Artístico e O Sofrimento Humano. 
          Os Topos do fazer literário sempre presentes: Carpe Diem, viver o momento com toda intensidade; Locus Amoenus, ligado ao bucólico, à paisagem, à natureza plácida e ao amor.  Ego Sum, laivos do subjetivo, o Eu do Romantismo; o Ubi Sunt? (Onde estão eles?), ligado ao nostálgico, sem ser niilista, mas sempre positivo. 
          Outro aspecto que não poderia deixar de mencionar é a abordagem que a autora faz da Natureza como paralelo de nossas vidas.  Minas de tantas serras, paisagens e céus maravilhosos, sempre inspira poemas sobre as dualidades serra / dramaticidade; céu / placidez; serra / masculino; céu / feminino.  Mário de Andrade e João Alphonsus (filho de Alphonsus de Guimarães, de Mariana) escreveram, respectivamente, um poema e um romance sobre a Serra do Rola-Moça em Belo Horizonte.  Aqui a autora se inspira sob o manto das Serras do Parque Estadual do Pico do Itambé, das matas, águas e cachoeiras, pássaros, borboletas, e da imensidão do céu noturno pontilhado de estrelas.  Nada escapa de sua sensibilidade e apreciação. 
          Enfim., o livro é um apaziguamento d’Alma, com a nudez da artista descalça mostrando seu despojamento de preconceitos, vestindo a cada passo roupas coloridas, de diferentes estilos e tecidos, metáforas de suas qualidades humanas.  Os pés descalços vão pisando os prazeres e belezas de nosso mundo, bem como sentindo a aspereza dos solos da Vida.
          Termino esta apreciação com as palavras da autora:

Quando tudo é silêncio e a lua em seu brilho e beleza
devagar, espiando a noite, caminha...

21 de abril de 2020, Teócrito Abritta
Físico e Escritor




domingo, 26 de abril de 2020

Fruta do Mato



Estás a cantar, a queimar
em desejos irrealizados
coisas de passado apagado?

Escreva um Haikai:

                    Espinhos que picam
                    o verdejante a brilhar
                    pelo amor que peca.

Ordene-se espiritualmente
reflita sobre mistérios
da Vida e Morte.
A Natureza, as estações do ano.

No fluir do inverso Tempo
visite Siracusa
encontre Teócrito.

Escute poemas pastoris
sinta cheiro do campo
de relva molhada.

Encante-se com a Jardineira
– etérea inatingível
(penetre seu cerne).

Apenas observe assim
assim, o seu cultivar.

O canto das Éclogas
nas tintas de clorofila.

O sangue a suar
em seus dedos
gotículas vermelhas
(seja o espinho a picar).

Apenas cheire a Flor
(com ardor).

Pense na brevidade
transitoriedade da Vida.

Nos Seres da Noite:
na Flor de Mandacaru
uma noite apenas
no seu desabrochar.

Nos Seres do Sol:
a Falsa Íris
apenas um dia
um dia apenas
o roxo da Flor
de sua paixão a brilhar.

Palavras ao vento.
Concretize a Ninfa
Degluta sua Flor!


Teatro Grego de Siracusa. Foto T.Abritta, 1992.



domingo, 19 de abril de 2020

Um Poema de Alejandra Pizarnik



Ela se despe no paraíso
da sua memória
ela ignora o destino feroz
de suas visões
ela tem medo de não saber como nomear
o que não existe

Em a “Árvore de Diana". Alejandra Pizarnik

pintura por Sandra Sedmak Engel, pintora americana

 Alejandra Pizarnik nasceu no dia 29 de abril de 1936, em Avellaneda, cidade da região metropolitana de Buenos Aires. Seu primeiro livro de poemas, La tierra más ajena, foi publicado em 1955 e assinado como Flora Alejandra Pizarnik. Em seguida vieram La última inocencia, de 1956, e Las aventuras perdidas, de 1958. Estudou filosofia, letras e jornalismo, porém sem concluir os estudos universitários. Em 1960, mudou-se para Paris, onde viveu durante quatro anos e travou amizades com os escritores Julio Cortázar e Octavio Paz, tendo este último escrito o prólogo de seu livro seguinte, Árbol de Diana, de 1962. Em 1965, após seu retorno à Argentina, publica Los trabajos y las noches. Seus livros seguintes são Extracción de la Piedra de Locura, de 1968, e El Infierno Musical, de 1971. Em 1972, aos 36 anos, Pizarnik morre após ingerir uma quantidade letal de barbitúricos, deixando escrito na lousa de seu apartamento: "Não quero ir/ nada mais/ que até o fundo."


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Prezada Leitora


Agradeço seus comentários e atenção pelo meu livro, lendo e relendo linhas e entrelinhas, em particular o conto Galinha Matada.
Escrever sobre temas mais psicológicos, ou seja, o Eu interior, penetrando fundo na alma feminina, é um tanto complexo.
Diante das suas indagações sobre os limites do fazer literário e a realidade, escrevi um pequeno ensaio, esperando que não tenha revelado totalmente meus “segredos”.  Fica como um compartilhamento das minhas técnicas de escrita, diante do seu grande interesse pela Literatura e assuntos correlatos.
          Não sei se responderei a suas indagações.  Mas a ideia é esta mesma: levar os leitores a uma reflexão engrandecedora e não apenas lúdica.
          Agradeço também pela imagem que enviou, onde a reprodução desta pintura de Marc Chagall, perturbadoramente bela, aponta um novo enfoque para o texto.  Ilustro o ensaio com tal imagem, deixando como legenda parte de seus comentários.

Sobre “Os Meus Papéis”

          Quando escrevemos esperamos que os leitores se identifiquem com os textos.  Mas nem sempre isto acontece.  Fica faltando um quê de realidade.
          A sua grande identificação com o conto Galinha Matada muito me alegra.  Escrever sobre reflexões filosóficas e o íntimo da alma feminina é difícil, ainda mais num tom poético e sensual, sempre com extrema delicadeza.  Portanto esta sintonia é positiva.  O texto trata de preocupações e sentimentos profundos, mas sempre levando ao caminho da esperança.
Não é o que todos almejam?
          Uma coisa é descrever sentimentos.  Outra é penetrar nos pensamentos, lendo-os como um livro aberto – a mente masculina invadindo o universo feminino, rompendo suas rendas e experiências particulares.  Como isto é impossível, usei uma técnica de “emoldurar” o texto com citações diversas, cenários maravilhosos, poesias intrigantes e provocativas (ver, por exemplo, na página vinte e oito).  Usei também uma grande carga de símbolos, como a cobra, a égua e imagens de forte apelo emocional e sensual.  Ou seja, fui criando um ambiente para a pessoa sentir-se acolhida e perder-se nas idas e vindas entre o real e imaginário, acabando por entrar na personagem e fazendo parte da história, como você mesmo comentou: parecia que me desnudava física e emocionalmente...
          Para escrever este texto tive que reler Bergson, rever filmes, como Morangos Silvestres – que trata da velhice e o passar do tempo – e juntar uma infinidade de textos, citações, poemas e até pesquisar na Bíblia para encontrar a citação usada.  Note que o poema Sírinx, de Teócrito (claro, o grego), foi tirado de uma tradução que saiu no jornal em 1993.  Outra obra muito consultada foi O Homem e seus Símbolos de Carl G. Jung, que muito contribuiu na construção dos cenários e nas imagens provocativas ou enigmáticas.
          Assim foi montada a armadilha para uma leitora fiel como você perguntar:

         Ali estou ou sou eu?!


Ler “Galinha matada” é proposta para variadas leituras.  Se tivesse de sugerir uma imagem, seria esta de Chagall: a personagem esplendorosamente triunfante e o narrador tentado entrar na história, cavalgando neste cenário de sedução.


Conferência sobre o nada



"eu estou aqui
e não tenho nada a dizer
e o estou dizendo
e isto é poesia"

John Cage, "Conferência sobre o nada" (1949).

Foto T.Abritta