Nunca a perfeita interpretação da alma
mineira foi atingida como nas histórias e piadas de Fernando Sabino:
Mineiro
é cauteloso, desconfiado, não gosta de revelar nem a identidade – falava o
escritor:
– Qual é o seu nome todo ? – pergunta o carioca .
– Diz a parte que você sabe – desconversa o mineiro .
Diante
de estranhos sua conversa é econômica:
– Ah, você também é de Minas ?
– Sou, sim sinhô .
– De onde ?
– De Minas mesmo .
Em
geral, tenta ser conciliatório, mesmo quando incitado a externar opiniões
políticas:
– Que tal o prefeito
daqui?
– O prefeito ? É tal qual eles falam dele.
– E o que é que eles falam dele?
– Dele? Uai , esse trem todo que falam de tudo
que é prefeito .
Mas o melhor
da cultura mineira
são os seus
hábitos de economia ,
que muitos
classificam como “pão-durismo”. Na realidade ,
mostram uma preservação de recursos . Em Minas já se
cultuavam estas idéias há tanto tempo , que podemos dizer que, enquanto os ecologistas
de hoje vinham com
o milho, a mineirada já ia com o fubá .
Dos familiares
paternos , havia história de parente que partia os palitos
de fósforos em dois . Do lado
materno , um vizinho
da minha avó, em
Belo Horizonte ,
retirou as lâmpadas de sua sala quando instalaram um
poste de iluminação
na rua , bem em frente a sua janela . Outra vizinha , Dona Emília, exagerava um
pouco na economia ,
transformando os gatos da região em guisados , filés
acebolados e outros
quitutes .
Na
casa em frente, Seu Trindade, figura importante do bairro, proprietário do
único telefone da rua e guarda civil aposentado, era econômico a seu modo. Nunca saía, vestia ano inteiro o mesmo pijama
encardido. Da janela não deixava de
cumprimentar cada morador:
– Já vai sair,
né Dona Lourdes?
– Já voltou,
né Dona Lourdes?
Quando passávamos férias
na casa de nossa
avó, não podíamos dormir
com luzes
acesas. Na manhã
seguinte, uma romaria para
perguntar quem
ficou doente durante
a noite .
Lá , desconheciam-se medicamentos
industrializados. Toda farmácia vinha das ervas
do quintal . Na frente
da casa não
existia muro e sim
uma espécie de cerca
viva, que tomava também
boa parte da calçada
de terra .
Diariamente, pouco antes do almoço , aquele perguntar constante: Dona
Lourdes, posso pegar ora-pro-nobis? Mostrando que aquele matagal era na
verdade uma verdura, que complementava a
alimentação de todos ,
inclusive da vizinhança – uma das heranças da cultura
escrava, que descobriu seu valor
nutritivo. E assim
o pessoal ia vivendo...
Ora-Pro-Nobis florido.
Foto 2009 ©
Crônica publicado em abril de 2009 no Montbläat e
posteriormente no livro Memórias, História e Imaginação. A maravilhosa foto que ilustra esta postagem,
me foi enviada na época por uma leitora de Minas Gerais.

