O que
nos assusta nas dezenas
de vítimas causadas pelas epidemias de
dengue, meningite, febre amarela, maculosa, suína, e outras que há muito
deveriam ter sido erradicadas, é o falecimento
de um grande
número de jovens e crianças. Parecem botões
de flores impedidos de desabrochar
ao ter suas trajetórias
abruptamente interrompidas. O mais
grave é que
são mortes
perfeitamente evitáveis,
se não fosse a incúria
das autoridades públicas, que priva boa parte
da sociedade de um
saneamento básico
e de assistência médica
compatível com
a nossa época. Aos doentes
nada resta
do que esperar
a morte nas infindáveis
filas de um
suposto atendimento, enquanto as autoridades
públicas apenas se preocupam com seus desgastes
eleitorais, desviando a atenção popular
com acusações
mútuas, tal um bando
de criminosos defendendo-se.
As constantes e recentes notícias
destas perdas muito me lembraram o sofrimento do poeta
Ascânio Lopes, um dos fundadores da revista
Verde
que morreu aos vinte e dois anos de
idade, de tuberculose, em 1929. Nesta época, sem antibióticos
e sem os conhecimentos
atuais da medicina,
os pacientes esperavam a morte
em sanatórios,
apenas com
algum conforto
que aliviasse o sofrimento e a certeza da morte. O jovem
Ascânio lutava pela vida
compondo poemas que
descreviam sua luta
contra a morte, que
rondava os lúgubres corredores
do hospital nas infindáveis
noites de espera
pelo fim. O seu poema Sanatório nos impressiona pela
semelhança com
os dias atuais,
quando os avanços
da medicina não
chegam a boa parte da população. A todos aqueles que hoje sofrem
como nestas décadas
passadas, abaixo
transcrevo um poema
deste jovem escritor
produzido em seus
últimos momentos.
As
Estrelas
Ele enamorou-se das estrelas e quis
possuí-las.
E começou a construir uma torre para alcançá-las.
Mas quanto mais
a torre crescia no ar
mais longe ficava o céu inatingível
e as estrelas cada vez
brilhavam mais.
Um dia, quando
a torre estava enorme,
fina, alta
e o céu tão
longe e as estrelas
tão altas
ele desanimou e se pôs a chorar.
E debruçou-se no alto da torre alta.
Mas deu um grito
de dor
porque, lá em baixo, em baixo, as estrelas brilhavam mais
no espelho das águas paradas.
Outra
morte que toda esta situação
epidêmica me lembrou foi a de meu irmão,
falecido aos dezesseis anos de idade de coma
diabético, e que teria hoje mais de
sessenta anos de vida. Com os
recursos atuais seria uma morte
evitável, assim
como seriam evitáveis
as dezenas de perdas
humanas com as atuais epidemias.
Como
homenagem a Guilhermino Abritta, representando estas perdas
humanas anônimas, falarei um pouco de seu tempo e seu colégio,
como incentivo aos jovens
estudantes que
começam a se manifestar, ainda que, por
vezes, dirigidos de uma forma alienada
por alguns partidos
políticos que
atuam nos bastidores
do movimento estudantil.
A década
de 60 testemunhou uma das mais
fantásticas experiências educacionais brasileira,
que foi o Colégio
de Aplicação, da antiga Faculdade
Nacional de Filosofia
da Universidade do Brasil (ver Figura). Neste colégio,
conhecido como
CAp, os estudantes não
só tinham um
ensino de qualidade,
como eram despertados para
a democracia e cidadania
com grande independência
intelectual. Para isto, eram incentivados a participar
de clubes de ciências,
história e geografia. Tinham o apoio de excursões
culturais, contavam com serviço de orientação educacional
com psicólogos
que os assistiam, participavam de palestras com personalidades
de nossa cultura,
recebendo uma educação a mais completa possível neste
colégio público.
Estudantes
do Colégio de Aplicação. Guilhermino Abritta é o primeiro aluno em pé
à esquerda. Foto acervo Teócrito
Abritta.
Neste ambiente
intelectualmente estimulante,
Clarice Lispector falava sobre o conto moderno e
apresentou seu livro,
ainda inédito,
A Maçã
no Escuro. Adonias Filho
falou sobre seu
livro recém lançado na época,
Corpo Vivo. Outros
escritores e pessoas
atuantes em
nossa cultura
sempre davam sua
colaboração a estes
jovens, como
Fernando Sabino, Jorge Amado, Manuel Bandeira, jornalistas
como Jânio de Freitas e Zuenir Ventura e vários
músicos, artistas,
cientistas e historiadores da época.
Esta efervescência
cultural lhes dava grande independência intelectual, com
os estudantes se manifestando em seu jornal A Forja. Isto fazia com que estes jovens não se
filiassem facilmente a partidos ou grupos políticos, por considerarem as análises e interpretações da sociedade
brasileira por
eles produzidas, insuficientes
e fracas do ponto de vista
teórico e conceitual
(Alzira Alves de Abreu, Intelectuais
e Guerreiros: O Colégio
de Aplicação da UFRJ de 1948 a 1968 – Editora da UFRJ, Rio de Janeiro
– 1992).
Infelizmente
experiências educacionais
como esta, juntamente
com o plano
de alfabetização de adultos de Paulo
Freire e todas as contribuições e experiências desde Anísio Teixeira a Darcy
Ribeiro, foram abortadas pela ditadura e mantidas soterradas pelos atuais governos, que preferem uma geração
passiva, obedecendo as palavras de ordem
dos partidos de sua
chamada base
política, e um povo
comandado pelos big brothers televisivos.
Mas
agora um
pouco de consciência
e pensamento independente
não significam apenas
a liberdade política. Significam a vida,
ameaçada por doenças
medievais que
acompanham os nossos cínicos governantes.
Nota:
-
Hoje, Mino, como o chamávamos, faria 69 anos.
Abaixo uma pequena homenagem às suas brincadeiras, jogos de palavras e
enigmas. Aiobji’s era como
apelidava duas das minhas irmãs: a menor e a do meio.
Aiobji
...no
seu contrário
embaralhado
ler: Jiboia
criador
e
criatura.
a
obra
e
a cobra.