quarta-feira, 19 de julho de 2017

O Poema



Tudo está
No som. Uma toada.
Raramente uma canção. Devia

ser uma canção – feita de
minúcias, vespas,
uma genciana – algo
imediato, tesoura

aberta, olhos
de uma dama – despertando
centrífuga, centrípeta.

Poema de William Carlos William,
tradução de José Lino Grünewald.


segunda-feira, 10 de julho de 2017

A Arte que Inspirou Picasso e Modigliani




Acervo Teócrito Abritta.


Máscara Ritual Macondo, Litoral da Tanzânia. Séc. XIX.
Acervo Teócrito Abritta


Máscara Ritual Macondo, Litoral da Tanzânia. Séc. XIX.
Acervo Teócrito Abritta


domingo, 9 de julho de 2017

A Arte de Susana Lehrer de Souza Barros


          Susana (1929-2011) foi minha vizinha quando eu tinha uns quinze anos, foi a professora que fez a minha prova oral no vestibular de Física na PUC-RJ, tendo sido posteriormente minha professora de Física I.  Afortunadamente foi minha colega por uns trinta anos no Instituto de Física da UFRJ.
          A par de sua carreira científica e educacional, trabalhou em Artes Plásticas – Gravura, Cerâmica, Colagens, Pinturas e Artes Digitais.
          Aqui tenho o prazer de apresentar esta original colagem, onde pedaços de cascas e fibras de coco são aplicadas sobre uma pintura, dando-lhe uma tridimensionalidade.
          No enquadramento desta obra, foi usado um ressalto entre os vidros, de modo a permitir a sua espessura.



Obra do acervo Teócrito Abritta.

sábado, 8 de julho de 2017

A Arte de Bia Vasconcellos


Galeria de Arte Centro Cultural Cândido Mendes, Rio de Janeiro-RJ, 1990.

Notem os detalhes de sua obra, onde colagens de tecidos são aplicadas em pinturas a óleo.  A tela fica entre placas de vidro para preservar a frágil superfície composta de pinturas e colagens. Acervo Teócrito Abritta.





Nossas imagens e o passar do tempo


Retratos
Cecília Meireles
Eu não tinha este rosto de hoje
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios
Nem o lábio tão amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil,
Em que espelho ficou perdida
A minha face?

Encomenda
Cecília Meireles
Desejo uma fotografia
Como esta - o senhor vê - como esta:
Em que para sempre me ria
Com um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
Derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga que me empresta
Um certo ar de sabedoria.

Não meta  fundos de floresta
Nem de arbitrária fantasia...
Não... nesse  espaço que ainda resta
Ponha uma cadeira vazia.


A Física do Susto
Cassiano Ricardo
O espelho caiu da parede.
Caiu com ele meu rosto.
Como meu rosto a minha sede.
Com a minha sede o meu desgosto.
O meu desgosto de olhar,
No espelho caído, o meu rosto.

Aquela Fotografia
Teócrito Abritta
ontem hoje sempre

imagens são lembranças
de nossas essências.
E não queremos perdê-las

vestida de azul
nos braços conto pintinhas
la bella desnudo



segunda-feira, 3 de julho de 2017

Cidade


Cidade City Cité
atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubri
mendimultipliorganiperiodiplastipubliraparecipro
rustisagasimplitenaveloveravivaunivora
cidade
city
cité
Augusto de Campos

"Eu fui com Lygia e Haroldo aos Estados Unidos para uma série de apresentações da poesia concreta. Estive em várias universidades. Em Nova Iorque, fiquei hospedado no Chelsea Hotel. Isso foi em abril de 1968. Eu não sabia, mas no mesmo período lá estava Janis Joplin, que estava gravando 'Cheap Thrills'. Ela sempre ia, quando ficava em Nova Iorque, nesse hotel famoso, célebre ponto da cidade, mas também um hotel barra pesada. Então, naturalmente, conheci o primeiro disco da Janis, fiquei impressionadíssimo e, na mesma ocasião, em 68, eu fui para Austin, no Texas, e fui também pra Bloomington, Indiana. Em Bloomington gravei, na rádio da universidade, uma primeira versão do poema cidade (cidadecitycité)."

"Bom, aí está o poema 'cidade', que, na primeira versão, a de Bloomington, era muito mais longa do que esse. Nesse poema - digo que foi influenciado pelo (John) Cage -, me dei muita liberdade aleatória, tomando a palavra 'cidade' e outras palavras que terminavam com essa parte vocabular. Decidi fazer um poema com todas elas, que tivessem alguma relação com a ideia de grande metrópole. Adotei um critério puramente casual. Coloquei as palavras em ordem alfabética, sem me preocupar com o sentido que tivesse. Mas tive a sorte de que, no fim, a última palavra vinha a ser 'voracidade'. E eu percebi que ela como que engolia as palavras anteriores, ela fechava o poema, que ameaçava não ter fim. Na primeira versão, ele foi crescendo, virou uma espécie de monstro, que eu não conseguia mais controlar. Então eu tive a ideia, percebendo que a origem latina dessas propiciava que elas existissem em várias líguas, vários idiomas, inclusive o anglo-saxão... Resolvi encolher esse poema numa medida até que ele pudesse ser publicado numa página, em duas páginas. Ele foi reduzido de modo que apenas sobrevivessem as palavras que tivessem a mesma grafia nas três línguas: português, francês e inglês. Ficou 'cidade city cité'. A primeira gravação que eu fiz dava uma ideia do monstro que eu tinha em mãos. Àquela altura, eu conseguia ler de um só fôlego, era jovem. Hoje não dá mais".
Augusto de Campos

Ver vídeo no link abaixo:

Comentários por e-mail

Conheci um poeta que escrevia seus poemas com este tipo de provocação e sonoridade. Agora sei em quem ele se espelhou.

A sonoridade facilita a comunicação e ornamenta a linguagem, tal uma sinfonia de haikais cheia de uais...



domingo, 2 de julho de 2017

Encontros Literários



Fictio importat veritatem.

                    (A ficção supõe a verdade.)


Encontro com Jorge Luís Borges e Adolfo Bioy Cesares no Café La Biela, bairro La Ricoleta, Buenos Aires, fevereiro de 2014.



Impatiens


          Acabei o projeto, mas estava impaciente.  Andava de um lado para outro, pensando em não sei o quê.
          Olhava pela janela da cozinha, apenas o sol por testemunha.
          Corri até o escritório, tetas no teclado – ato falho – teclei a mensagem:

Olá
Tudo legal por ai? Escrevendo?
Depois de uns dez dias te dei um bom descanso, né?  Aqui descansei também.

A noticia boa é que inventei de construir um orquidário como solução de sombreamento para minha cozinha, que sofre com o sol da tarde.
Assim, daqui algum tempo, apreciarei a coleção de orquídeas da janela.
Também será o espaço para o manuseio de outras mudas, outras plantas que me agradam.  Em confortável ar terão também Maria-sem-vergonha (Impatiens), avencas e outras.  Texturas vivas simples e frescas.


Impatiens.  Foto T.Abritta.  Itaipava, Petrópolis – 2009.

Não sei ficar quieta.  Mesmo parada, eu movimento, embora as escritas andem paradas.
Você consegue entender isso, "andam paradas"?

Ah, Impatiens são totalmente desavergonhadas.  Basta um ligeiro roçar, que arremessam suas sementes, tal um beijo.  Sempre com um jeitinho dado, ao agarrarem um pauzinho molhado, criam logo raízes.  Pulam cercas e muros, adoram aninhar-se em sombras acolhedoras, grudando-se toda.  Verdadeira Maria-sem-vergonha.  Muito impacientes.

Que tal visitar este jardim?  Poderá cheirar minhas flores, sentir texturas e, quem sabe?  Até sabores.

Bjo



Amizades Cibernéticas


          Gostei de ver sua luzinha verde acesa aqui no computador, mostrando que está online lá no Gmail.  Afinal, faladeira, calada, serena ou agitada, sempre querida.

          Acendi só pra você...
          Sua conversa é confortável, saiba disso.  Aliás, é sempre bem especial dos “nenhuns” que falo.  Deu pra entender, né?

          Esta história da luzinha acesa poderia ser a versão moderna da Parábola das Dez Virgens, descritas no evangelho de Mateus 25: 1-13. Nesta Parábola, as cinco Virgens Prudentes, precavidas, guardam óleo para acender suas lanternas para os noivos.  As outras cinco virgens, as Néscias, por falta de óleo não acendem as lanternas e ficam no ora-veja.

          Hahaha, mas a minha está acesa!
          A propósito, li sua mensagem de fim de ano reavaliando e valorizando palavras como: Amizade, Ausência, Autêntica Lembrança e Recordação.  Palavras tão bonitas para mim.  Você é realmente um “Amigo Fiel”.

          Ah, Amigos... Metáforas ou marcas de suas “Entrelinhas”...

          Ui, ui, ui...

          “Mais que os beijos, são as coisas escritas que unem as almas”.
John Donne:

          Será Vero?!

Rsrsrs...

Imaginação e Obsessão


          Não sei o que pode estar acontecendo.  Uma encomenda Sedex, Belo Horizonte-Rio, leva no máximo três dias para chegar.  Já faz uma semana.  Por aqui o correio não aparece há dois dias.  Bem, dizem que é a greve de ônibus. 
As aspas foram culpadas por tudo isto.  Quando ela escreveu que, além da Antologia, enviaria uma “coisinha” mineira que não era cachaça nem pão de queijo, começou a minha curiosidade.  Depois angústia, agora verdadeira obsessão.  As aspas davam um sentido conotativo que me intrigava.  Perdida a razão, pensamentos começam a ficar confusos, realidades são criadas.  A imaginação concretiza-se.
Mero símbolo linguístico-gráfico.  Mas tão significante. 
As aspas foram culpadas...

          Fui selecionada para a Antologia de Outono.  No lançamento, todos se reuniram para um concerto de música clássica, coral e a leitura dos poemas.  Fui também escolhida para proferir as palavras de abertura.  Verdadeira maravilha a cerimônia. 
          Fiz um agradecimento para você, como parte das pessoas que me fizeram pensar a Literatura e usei nas minhas palavras suas sugestões que resultaram nos meus poemas:
          “Outono é uma estação do ano, marca no ritmo da Natureza.  Folhas secam, galhos nus, hora de recolhimento, de descanso para enfrentar as dificuldades da próxima estação.  Tempos de migração para milhares de aves que atravessam o Mundo com as mudanças do clima.”
          “Que tal um paralelo entre a vida e o ritmo da Natureza?”
          “Observe as árvores, arvore!”
          “Deixe os pensamentos ‘migrarem’, invadirem seu íntimo, traírem seus segredos!”

          Agradecida, seguem fotos em anexo.

          Seria apena mero registro visual de uma cerimônia literária-festiva.  Mas havia as aspas da “coisinha” e o caráter conotativo.  As imagens certamente traziam significados ocultos.  Ampliei-as em uma grande tela de computador, esmiuçando cada detalhe. 
          Não a imaginava tão jovem.  Que idade teria?  Entre quarenta e cinquenta?  Não sei.  Prefiro dizer: jovem senhora de idade indefinida. 
          Era muito bonita.  Longos cabelos negros, cintura fina, insinuantes sinuosas curvas.  A elegância do vestir valorizava o corpo.  Casaquinho de veludo claro com textura e talhe fashion.  Bolsa de design a tiracolo.  Blusa cintada com fiapos nas bordas – pequeno toque de informalidade.  Longa saia justa indo até os pés, feita de um tecido que delineava o corpo. 
          Estas definições de “cenários” pelo menos me distraíam, atraíam, fazendo-me esquecer um pouco da “coisinha” que a qualquer hora bateria na porta.

          O lindo sorriso invadindo a tela.  Aproximando aqueles olhos até sentir seu arfar, via um quê de tristeza.  No fundo é desta multiplicidade de sentimentos que nasce a criatividade poética.
          Rolei a imagem passando pelos ombros, braços.  Deslizei as mãos pela delgada cintura.  Já misturava o real e imaginário. 
          A sinuosidade dos quadris, ancas, pernas.  Perfeição de formas, valorosa geometria.
          A pulsação acelerando, vista turva.  Abandonava perigosamente o mundo real.
          Despertei com o iPad anunciando a chegada de nova mensagem:

          Estou rastreando a encomenda.  A “coisinha” já está em processo de entrega.  Hoje deve recebê-la. 

Cambaleante, fui atender o interfone, seguido pelo onisciente olhar.

          Chegou!  Agora em minhas mãos!
Uma colorida caixa azul, toda etiquetada, escrita à mão com marcantes letras. Dentro, um envelope de papel metalizado guardava a antologia e uma caixa de madeira preta: a "coisinha".
No livro, os poemas e doce dedicatória.
Na caixa, uma rocha acompanhada das palavras: Para você, um pedacinho do Rio São Francisco.

          Ainda rastreado por aquele olhar, nova mensagem:

Não falei que era só uma coisinha, grande é o prazer de lhe enviar, tão importante tem sido nesta minha trajetória, seu apoio.
Admirar e catar pedras são manias que trago desde menina.
Segue imagem da rocha no lugar de origem.  São terrenos em camadas, que vão se desmanchando, formados em fundo de lagos.  O lugar é bem interessante e sugestivo.
Lá pisando ou sentada, solitária pensava e sentia a importância do tempo e o trabalho das águas.
“Eternidade”.

          Interessante como sonhos podem confundir-se com a realidade, mesmo alguns segundos após sermos despertados por estridentes ruídos de tablets e interfones.
          Emocionado pelo original presente, agradeci formalmente a gentileza da lembrança.

          Mas as aspas, lá ainda estavam em “Eternidade”.
          Como diz a sabedoria popular:

          “Aí tem coisa”

Diálogos Imaginário de um Escritor de Poucos Leitores


Livro Digital ou Analógico?

             Este é um convite para me acompanhar nesta jornada poética, viajando no espaço-tempo do nosso mundo de imagens.  Nestas páginas encontrará a Memória, Saudades, Tristezas, mas também encontrará o Amor e Beleza.


          Li seu livro em duas pegadas.  Eu já tinha apenas folheado e brincado com ele.  Mas neste fim de semana fiquei preguiçosamente na cama assistindo a filmes e lendo o livro.  Por sinal, muito acolhedor.
          Não foi difícil seguir a leitura, já que as letras grandes, na tela do laptop, permitiam fluência na apreciação do texto.
          Quando falava da técnica fotográfica era sempre apoiado em ilustrações, o que dava veracidade à Arte.
          Posso imaginar a felicidade de tê-lo concluído: para tanto, precisa-se de “gavetas” fabulosas.
          Pois é, a arte de guardar mimos e oferecê-los em livros, transcritos pelo sentimento próprio, tudo construído com o tempo, e reunidos posteriormente, tantas publicações e imagens soltas, dão esta possibilidade, talvez inesperada.  Não sei, mas o que se comprova é que a vida é para ser vivida.
          Em suas páginas é que construímos a imagem transformada de nós.  O que somos menos importa, mas como vemos.
          Agradecida pela leitura, aguardo o próximo:

“Tal luz na pedra escura a História passa”

Ah, senti falta de pegá-lo em minhas mãos.  Ainda hei de me acostumar com a nova era digital.

Grande Beijo para você.


          Eu não falei, que você era minha querida leitora especial?
Maravilhosos seus comentários.  Já valeu a pena ter escrito e juntado tudo isto, só de saber que fez parte de sua tarde de preguiçoso merecido descanso.
          As imateriais páginas digitais agradecem, sentindo o seu pegar, o passar das folhas, o seu arfar...
          Cada um escreve por uma razão.  Mas a minha preferida é juntar histórias, fatos, um pouco de cada um que acaba falando um pouquinho nos textos.  Nada invento, apenas abraço o que vejo ou leio, mesmo à distância, assim, assim...mesmo.
          Ainda bem que tenho você que transita por vários assuntos, pela escrita, pelas imagens, pelo real ou imaginário, passado, presente ou futuro.
          Vou guardar seus comentários no baú das minhas grandes homenagens.

          Como curiosidade, você no final escreveu com doces palavras o que Humberto Eco escreveu um tanto tecnicamente.  Ver abaixo:

“Como é belo um livro que foi pensado para ser tomado nas mãos, na cama, até num barco ou onde não existem tomadas elétricas.  Até onde e quando qualquer bateria se descarregou.  Suporta marcadores e cantos dobrados, pode ser derrubado no chão, abandonado sobre o peito ou joelhos quando caímos no sono”.
A memória vegetal e outros escritos sobre bibliofilia, Humberto Eco, 2010.

Um Grande Beijo real e não digital para você.

E até um próximo livro para você usar marcadores e escrever observações...


A Leitora. Renoir

Prezada Senhora Magdalena


          Parabéns por continuar dentro da Cultura Mineira, valorizando velhas construções, pesadas portas, janelas; fechaduras, aldravas e até mata-burros nas entradas de igrejas.  Minas é assim: tradição unida à modernidade.  Na fotografia, uma pitada de modernidade pode ser obtida, por exemplo, através de contrastes entre a sensação de eternidade e o frescor do “novo”.  Quem sabe, uma sexy modelo – não restaurada – junto de um centenário alambique?  Ou a jovem senhora, arrebitando-se com as pesadas panelas daquele fumacento fogão a lenha?
A região do ciclo do ouro mineiro é encantadora.  Plena de História, Arte, Mistérios, Emoções.  Santa Bárbara brilha como mini Ouro Preto.  Catas Altas tem grande dramaticidade, misteriosas montanhas, magnífico silêncio envolvendo a igrejinha de Santa Quitéria.  Muito a visitar, muito a ver.  Satisfação e placidez completam o cenário, dando gostinho de proximidade. 


Capela de Santa Quitéria, Catas Altas, MG.  Foto T.Abritta, 1996.

A presença da Fotógrafa nas imagens foi ótima ideia.  Não apenas traz mais calor e vida, como senso de escala para a grandiosidade das igrejinhas barrocas, algumas tão mal tratadas.
Fotografia é como um poema.  Depois de escrito pertence ao leitor-espectador que cria mil e uma interpretações.  Assim, uma imagem diz o que vemos – na imaginação, ou no frio recorte formado por cores e formas.  Tal um poema, também reflete a poesia de imagens imateriais.
Olhando mais detidamente algumas fotos, destaco, por exemplo, a de número cinquenta, com grande riqueza de cores e contrastes radicais: a aspereza e dureza da pedra suavizada pela maciez da modelo; a eternidade das portas e paredes gastas pelo tempo, com o olhar convidativo para explorar cada milímetro de calorosa sensualidade.  Chegamos até sentir a pele macia ao deslizarmos as mãos pelas rugosidades pedregosas. 
Já na foto sessenta e dois, a dramaticidade das montanhas é o grande manto que abriga a placidez, morada da imaginação, que muito faz acontecer sobre aquela laje de pedra, perdida na imensidão verde, marcada apenas pelo sorriso a decifrar.
Nos comentários finais deste ensaio fotográfico, abdico da neutralidade de espectador privilegiado, fazendo das palavras de Roland Barthes em O Prazer do Texto, as minhas palavras.

“Se leio com prazer essa frase, essa história ou essa palavra, é porque foram escritas no prazer.  Mas e o contrário?  Escrever no prazer me assegura – a mim, escritor – o prazer de meu leitor?  De modo algum.  Esse leitor, é mister que eu o procure (que eu o ‘drague’), sem saber onde ele está.  Um espaço de fruição fica então criado.  Não é a ‘pessoa’ do outro que me é necessária, é o espaço: a possibilidade de uma dialética de desejo, de uma imprevisão do desfrute: que os dados não estejam lançados, que haja um jogo.”

Atenciosamente,
Lázaro Lokovaks, Fotógrafo e Escritor.



Só te vejo



TK-85. Foto T.Abritta, 2008

...através das janelas baças deste teclado
   palavras palavras
   não sinto o fulgor de seu rosto
   nem o gosto de sua boca
   apenas palavras palavras

   mas nos tropeços deste teclado
   nos atos falhos
   nas entrelinhas seus desejos – revelados
   minha cara mui gentil jovem senhora...

   seu merecer seu querer
   agora metecer
   me tecer? Te tecer?

   bordar em seu veludíneo
   quente macio corpo?

metecer
tetecer
bem querer
te meter...