domingo, 21 de fevereiro de 2021

Outono


         Outono é uma estação do ano, marca no ritmo da Natureza.  Folhas secam, galhos nus, hora de recolhimento, de descanso para enfrentar as dificuldades da próxima estação.  Tempos de migração para milhares de aves que atravessam o Mundo com as mudanças do clima.

         Que tal um paralelo entre a Vida e o ritmo da Natureza?

         Observe as árvores, arvore!

         Deixe os pensamentos ‘migrarem’, invadirem seu íntimo, traírem seus segredos.


Foto T.Abritta, 1977.

 


domingo, 14 de fevereiro de 2021

A Lavradora


...lavra

   a terra

   a dor.


   semeia sonhos

   emoções.

 

colhe seus desejos

nas embaralhadas

                              [cores

de sua paleta de

                              [amores


Foto T.Abritta, 2013


 

 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Florescer

 

O inesperado é fabuloso.

Fundir-nos com a natureza,

talvez seja a mais real forma

da presença de nosso ser:

Observação, contemplação,

Paz...

 

entre espinhos do cacto duro

delicado sorriso do recôndito botão.

de seus grandes lábios róseos,

surge veludínea vermelha pétala.

                                                                                ©

 

no ondulante abrir labial,

floresce sedosa, perfumada

oferecida flor.

©

                                                                            

 



 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Haikai


nesta noite escura

triste solitário banco

espera por ninguém

Noite, janeiro 2021 ©

 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

As Ruínas de Selinute


         Estava iniciando um texto sobre minha primeira viagem pela Sicília.  Falaria sobre Palermo, Monreale, a pequenina Érice e a mararavilhosa Magna Grécia.  Mas, frente ao poema de Murilo Mendes, tudo mudou.

Palavras desabaram, renderam-se às Ruínas de Selinute.

 

Correspondendo a fragmentos de astros,

A corpos transviados de gigantes,

A formas elaboradas no futuro,

Severas tombando

Sobre o mar em linha azul, as ruínas.

 

         Há mais de trinta anos me emocionei com aquelas ruínas.  Caminhei entre suas pedras, fotografei ranhuras, fendas, colunas nascidas verticais partidas em sua morte horizontal.  Mas apenas hoje encontrei palavras para narrar as Ruínas de Selinute.

 

Severas tombando

Compõem, dóricas, o céu largo.

Severas se erguendo,

Procuram-se, organizam-se,

Em forma teatral suscitam o deus

Verticalmente, horizontalmente.

 

         O que diziam as imagens?  O que vi da outrora tridimensional Selinute, agora na horizontal-vertical dimensão daqueles slides – cromo, como alguns chamavam.  Eu prefiro slides.

         E minha volta a Selinute acabou em uma viagem fotográfica-arqueológica.

         Comecei a “escavar” até chegar às camadas mais profundas daquelas trinta caixas com material fotográfico: slides acomodados em folhas de polipropileno – vinte e cinco em cada uma –, tiras de negativos, material diverso, como tesouras, pinças, luvas, pincéis e até caixas de molduras de slides esperando novos fotogramas que nunca mais chegaram.  Depois de andar pelos quatro cantos do mundo e por todo Brasil, através mais de dez mil imagens, chego, finalmente, às ruínas desejadas. 

         Entre filmes negativos coloridos e slides, vou examinando cada fotograma.  Algumas imagens foram capturadas com o legendário Kodachrome e com a câmera Olympus OM-1.  Este filme resistiu de 1935 a 2009, quando declarado oficialmente morto.  Lembro-me que apenas vinte e cinco laboratórios no mundo revelavam esta película.  Para nós, o mais próximo era no Panamá. 

         Pego a mesa de luz, limpo seu vidro, ligo na tomada, aperto o botão de partida da lâmpada, e as imagens saltam nos olhos, ampliadas por uma lupa. 

         Monto o velho projetor Cabin e, de sua lente luminosa, as Ruínas de Selinute brilham na parede.  Enormes pedras tombadas vão subindo a colina desta fantástica cidade da Magna Grécia

         A História vai falando dos horrores das guerras que levaram a cidade rival Segesta a tanta destruição com o auxílio dos Cartagineses seus aliados.  Mais guerras.  Agora os Romanos e depois, já na era Bizantina, a fúria da Natureza com seus terremotos. 

         Hoje, apenas as fantásticas Ruínas de Selinute testemunhando a insensatez humana, a nossa fragilidade diante da Natureza tão mal tratada. 

 

         Como um tributo a esse arquivo fotográfico, que tantas lembranças me trouxe, escrevi em uma folha de papel, guardando cuidadosamente junto com as imagens:

 

Inconscientes Fotográficos

 

                  Tal luz na pedra escura a História passa

cenários ficam – muros rochas arquiteturas de alegrias

cores de sofrimentos.

A fotografia.

Outrora em cristais de prata

hoje pixels, registros numéricos.

 

Alfinetadas na imaginação

dores no coração

sombras de paixão

reviravoltas da emoção.

As distantes e mudas ruínas, agradecidas, pareceram responder:

 

Nossa medida de humanos

– Medida desmesurada –

Em Selinute se exprime:

Para a catástrofe, em busca

        Da sobrevivência, nascemos.

Um templo já restaurado das Ruínas de Selinute. Captura digital da imagem

 de uma projeção de slide.

Foto original: cromo colorido.  T.Abritta, 1979.

 

Nota:

 - Em negrito versos do poema As Ruínas de Selinute, Murilo Mendes.

 - Publicado em “Os Meus Papéis”.