Ao passo, subia, descia, cortava
trilhazinhas a caminho da Fazendola.
Paisagem magnífica, vistas infinitas, solidão absoluta. A Natureza que nos protege e renova. Viagem de reconstrução pessoal. Volta a um ponto no passado rompido.
Pensar o significado do tempo era
atrativo. Um dos meus temas preferidos em Filosofia. As ideias de um tempo circular, do eterno
retorno; o tempo de Bergson ligado ao seu conceito de memória, estabelecendo
uma comunhão entre passado e presente. O
implacável tempo da Ciência, a finitude dos sistemas biológicos. A escala de eternidade da natureza física,
sempre lembrada pelo olhar fossilizado daquele trilobito – lembrança de uma
existência com milhões de anos, olhando e dizendo do fundo das minhas estantes,
sufocado por livros empoeirados: “você, da geração de meia dois, ocupa um ponto
invisível, que representa seu intervalo de tempo nas eras geológicas.”
Tento olhar para frente. Pensar o futuro é a utopia que sempre
buscamos. No fundo, só existe passado e futuro. O passado com seus desejos
realizados ou não, fica na memória ou, para outros, marcas reais de alegrias ou
tristezas. Aproveitar o fugaz presente
sem medir consequências seria pensar a vida como efêmera, curta e, portanto,
sempre bela. Seria isto possível? Talvez
o futuro seja mais promissor, o futuro do desejo, do que pretendemos
realizar. Mesmo não existindo
concretamente, sempre pode ser idealizado.
O som – chocalho da cascavel enrolada
para o bote. Reação rápida: sem tempo
para vírgulas a égua empinou, levantando as patas dianteiras numa quase morte;
num sopro de terror pânico daquele horror saiu desembestada colina abaixo. Inclinada para a frente, o vento veloz
varrendo o rosto, correndo mais do que a
chama de uma vela, mais do que a luz e o pensamento. Por fim, montaria controlada: Cavalo ruano corre todo ano. Cavalo mineiro dizem que é matreiro. Ainda bem.
Estava perdida, longe da trilha. Procurei pelo mapa. Virando a bolsa de cabeça pra baixo nada
encontrei. Bem, bússola não tenho, seria do jeitinho mineiro. Perguntarei em cada esquina e eles me dirão:
é logo ali, dona. Mas por aqui
ninguém estará proseando. Nem velhos,
nem moços, crianças ou mesmo galinhas. O
jeito será perguntar para pedras, árvores e até porteiras – brincadeiras da
imaginação. Perdida, empoeirada,
enlameada, suarenta, despenteada.
Desandei a chorar (V. Figura 1).
Figura
1 – Perdida e Enlameada. Foto T.Abritta. Araras, Petrópolis – 2010.
Do nada, uma voz delirante cantou: “de
tua pele de maçã madura, por mim roçastes a cabeleira escura com uma tão rara e
singular doçura das espáduas nuas.”
Apeei, enxuguei as lágrimas no rosto
amarelado pela terra. Levei a égua para
beber água no laguinho deste vale desconhecido.
Tirei o chapéu jogado nas costas, a blusinha de seda toda maltratada,
terminando pela calça de montaria e botas.
Caminhei de um lado para outro, entrei na água, massageei os seios
doloridos pelo maltrato da cavalgada – onde já se viu uma Amazonas esquecer o sutiã?
Sentei na beirada de terra coberta com um capinzinho ralo. Pés esticados dentro da água, apenas
observava minhas unhas vermelhas em movimento, patinhando pra lá pra cá.
Felizmente a vida tem me dado
surpresas. Então acho que está indo
bem. Diz minha natureza que em situações
difíceis – estava perdida neste vale, quem sabe encantado –, o melhor é ouvir
música e dançar, ou simplesmente deitar e pacientemente observar. Existe movimento ainda que tudo pareça
estático.
Cobra-Nudez-Natureza.
Sexo-Prazer-Liberdade.
Natureza, as Églogas, os Poemas
Pastoris de Teócrito. O grego de
Siracusa, claro: ... com doçura e alma
alegre possas tocar a de lindo rosto, a jovem muda, a invisível (*). Seriam as mulheres e seus sentimentos, como
Eco, que por não ter voz própria, era muda, e invisível, por ser apenas
voz?
A sombra de meus seios oscilava nas
águas como a silhueta de pequeninos barcos sobre um espelho: meu rosto, o
tripulante. Longa viagem entre futuro e
passado. Entre a quietude e o
perturbador desejo. Entre meu querer e
não-querer.
Teve a coragem de me dar um livro de
Neruda com aqueles versos sublinhados:
Amo el amor de los marineros
que besan y se van.
Dejan una promesa.
No vuelven nunca más.
Poderia ter respondido:
Puedo escribir los versos
más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo:
“La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los
astros, a lo lejos.”
Babaca. Euzinha aqui, vilipendiada, abandonada,
desprezada, sufocada.
Bem que ele gostaria de ter sido
chamado de canalha, mas agradeci ao “perfeito cavalheiro”, suprema ofensa
masculina: o idiota que perde as oportunidades para outros.
Cartas marcadas-favas contadas-águas passadas.
Joguei os cabelos para trás, olhar
atrevido tal égua empacando, pensei: afinal,
sou bonita e gostosa, ou apenas fotogênica, acordo que fiz com a fotografia?
Uma
voz grave ecoou – não estranhem, vales encantados são assim:
“Narciso,
foste caluniado pelos homens,
por
teres deixado cair, uma tarde, na água incolor,
a
desfeita grinalda vermelha do teu sorriso.
Narciso,
eu sei que não sorrias para o teu vulto, dentro da onda:
sorrias
para a onda, apenas, que enlouquecera, e que sonhava
gerar
no ritmo do seu corpo, ermo e indeciso...”
Mãos
invisíveis acariciavam os seios intumescidos, outrora doloridos. Sussurros nos ouvidos:
Por
aveludadas texturas, cores que se atraem, que se traem
na
imaginação do ensejo a fruição de desejo
romper
rendas, atravessar teias
escorregadias
margens
aveludadas
texturas.
Olhos fechados, lembranças das
palavras bíblicas censuradas pela Irmãs dos tempos de colégio:
Teus amores são melhores
do que o vinho. Eu te comparo à égua atrelada ao carro do Faraó.
Nosso leito é todo relva.
Morna,
morna brisa. Vozes, vozes sensuais:
“Estava
perdida lá pelas Minas Gerais –
encantadora.
Que
vontade de penetrar nas suas matinhas
de
refrescar nos seus corregozinhos
comer
franguinho assado – eta gostosura!
Naqueles
campos, cavalgar – bela potranca
crinas
negras, fogoso olhar.
mordiscar
frutinhas, lamber melado.
Roçar
o milharal, fazer fubá,
leite
no curral.
Trepar
no mangueiral
chupar
até empanturrar
com
tanta doçura.”
Frêmitos
corporais. Sonho, realidade?
De
joelhos: Beijos-Um Beijo-Beijo Pra Você.
De
lado, de frente, sentada, deitada, de quatro: estopada pela espada – pensava
não mais passaria na fenda de sua bainha.
E
o aroma não sabia de onde vinha.
Na
estrada uma porteira rangente falou:
“E se inda houver amor eu
me apresento e me entrego ao princípio do oceano. Eu me arrebento feliz, atravessada de
esperança. E se inda houver amor, eu
simplesmente apago esta ferida do meu sono...”
Lá,
no fundo do vale, a visão da Fazendola: numa
regalia de almoço, galinha matada, morta – trucidada na hora. Sangue cozido
entornado no caldo, delícia de tira gosto. Mandioca frita e vai mais
branquinha, tudo isso literalmente na roça, em meio a bambus bananeiras e
asneiras.
Notas:
(*).
Fragmentos de Sírinx, Teócrito.
Tradução José Paulo Paes, 1993.
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Outros fragmentos intertextuais: Corre
mais que a Vela... e Esse Perfume,
Emiliano Perneta; Parêmia de Cavalo,
Carlos Drummond de Andrade; Viagem sobre
o Espelho, Cassiano Ricardo; Águas
Passadas, Maria Thereza Noronha, Epigrama,
Cecília Meireles; E se Inda Houver Amor,
Lucila Nogueira.