terça-feira, 27 de junho de 2017

nas entrelinhas



...a presença de sua Ausência
sua nudez seus segredos

a doçura da Amizade
o compartilhar de Prazeres

busca da Paz
cores da Alegria

venha, Amiga
caminhe afogue-se

nos olhos o reflexo de desejos
a quentura de sua presença

no fluxo da maré
a serenidade deste Mar.


Harmonia Cromática.  Foto T Abritta, 2015.


Prezada Leitora

Agradeço seus comentários e atenção pelo meu livro, lendo e relendo linhas e entrelinhas, em particular o conto Galinha Matada.
Escrever sobre temas mais psicológicos, ou seja, o Eu interior, penetrando fundo na alma feminina, é um tanto complexo.
Diante das suas indagações sobre os limites do fazer literário e a realidade, escrevi um pequeno ensaio, esperando que não tenha revelado totalmente meus “segredos”.  Fica como um compartilhamento das minhas técnicas de escrita, diante do seu grande interesse pela Literatura e assuntos correlatos.
          Não sei se responderei a suas indagações.  Mas a ideia é esta mesma: levar os leitores a uma reflexão engrandecedora e não apenas lúdica.
          Agradeço também pela imagem que enviou, onde a reprodução desta pintura de Marc Chagall, perturbadoramente bela, aponta um novo enfoque para o texto.  Ilustro o ensaio com tal imagem, deixando como legenda parte de seus comentários.

Sobre “Os Meus Papéis”

          Quando escrevemos esperamos que os leitores se identifiquem com os textos.  Mas nem sempre isto acontece.  Fica faltando um quê de realidade.
          A sua grande identificação com o conto Galinha Matada muito me alegra.  Escrever sobre reflexões filosóficas e o íntimo da alma feminina é difícil, ainda mais num tom poético e sensual, sempre com extrema delicadeza.  Portanto esta sintonia é positiva.  O texto trata de preocupações e sentimentos profundos, mas sempre levando ao caminho da esperança.
Não é o que todos almejam?
          Uma coisa é descrever sentimentos.  Outra é penetrar nos pensamentos, lendo-os como um livro aberto – a mente masculina invadindo o universo feminino, rompendo suas rendas e experiências particulares.  Como isto é impossível, usei uma técnica de “emoldurar” o texto com citações diversas, cenários maravilhosos, poesias intrigantes e provocativas (ver, por exemplo, na página vinte e oito).  Usei também uma grande carga de símbolos, como a cobra, a égua e imagens de forte apelo emocional e sensual.  Ou seja, fui criando um ambiente para a pessoa sentir-se acolhida e perder-se nas idas e vindas entre o real e imaginário, acabando por entrar na personagem e fazendo parte da história, como você mesmo comentou: parecia que me desnudava física e emocionalmente...
          Para escrever este texto tive que reler Bergson, rever filmes, como Morangos Silvestres – que trata da velhice e o passar do tempo – e juntar uma infinidade de textos, citações, poemas e até pesquisar na Bíblia para encontrar a citação usada.  Note que o poema Sírinx, de Teócrito (claro, o grego), foi tirado de uma tradução que saiu no jornal em 1993.  Outra obra muito consultada foi O Homem e seus Símbolos de Carl G. Jung, que muito contribuiu na construção dos cenários e nas imagens provocativas ou enigmáticas.
          Assim foi montada a armadilha para uma leitora fiel como você perguntar:

         Ali estou ou sou eu?!


Ler “Galinha matada” é proposta para variadas leituras.  Se tivesse de sugerir uma imagem, seria esta de Chagall: a personagem esplendorosamente triunfante e o narrador tentado entrar na história, cavalgando neste cenário de sedução.


Galinha Matada


Ao passo, subia, descia, cortava trilhazinhas a caminho da Fazendola.  Paisagem magnífica, vistas infinitas, solidão absoluta.  A Natureza que nos protege e renova.  Viagem de reconstrução pessoal.  Volta a um ponto no passado rompido. 
          Pensar o significado do tempo era atrativo. Um dos meus temas preferidos em Filosofia.  As ideias de um tempo circular, do eterno retorno; o tempo de Bergson ligado ao seu conceito de memória, estabelecendo uma comunhão entre passado e presente.  O implacável tempo da Ciência, a finitude dos sistemas biológicos.  A escala de eternidade da natureza física, sempre lembrada pelo olhar fossilizado daquele trilobito – lembrança de uma existência com milhões de anos, olhando e dizendo do fundo das minhas estantes, sufocado por livros empoeirados: “você, da geração de meia dois, ocupa um ponto invisível, que representa seu intervalo de tempo nas eras geológicas.”
Tento olhar para frente.  Pensar o futuro é a utopia que sempre buscamos. No fundo, só existe passado e futuro. O passado com seus desejos realizados ou não, fica na memória ou, para outros, marcas reais de alegrias ou tristezas.  Aproveitar o fugaz presente sem medir consequências seria pensar a vida como efêmera, curta e, portanto, sempre bela. Seria isto possível?  Talvez o futuro seja mais promissor, o futuro do desejo, do que pretendemos realizar.  Mesmo não existindo concretamente, sempre pode ser idealizado. 

          O som – chocalho da cascavel enrolada para o bote.  Reação rápida: sem tempo para vírgulas a égua empinou, levantando as patas dianteiras numa quase morte; num sopro de terror pânico daquele horror saiu desembestada colina abaixo.  Inclinada para a frente, o vento veloz varrendo o rosto, correndo mais do que a chama de uma vela, mais do que a luz e o pensamento.  Por fim, montaria controlada: Cavalo ruano corre todo ano.  Cavalo mineiro dizem que é matreiro.  Ainda bem. 
          Estava perdida, longe da trilha.  Procurei pelo mapa.  Virando a bolsa de cabeça pra baixo nada encontrei.  Bem, bússola não tenho, seria do jeitinho mineiro.  Perguntarei em cada esquina e eles me dirão: é logo ali, dona.  Mas por aqui ninguém estará proseando.  Nem velhos, nem moços, crianças ou mesmo galinhas.  O jeito será perguntar para pedras, árvores e até porteiras – brincadeiras da imaginação.  Perdida, empoeirada, enlameada, suarenta, despenteada.  Desandei a chorar (V. Figura 1). 


Figura 1 – Perdida e Enlameada.  Foto T.Abritta.  Araras, Petrópolis – 2010.

          Do nada, uma voz delirante cantou: “de tua pele de maçã madura, por mim roçastes a cabeleira escura com uma tão rara e singular doçura das espáduas nuas.”

          Apeei, enxuguei as lágrimas no rosto amarelado pela terra.  Levei a égua para beber água no laguinho deste vale desconhecido.  Tirei o chapéu jogado nas costas, a blusinha de seda toda maltratada, terminando pela calça de montaria e botas.  Caminhei de um lado para outro, entrei na água, massageei os seios doloridos pelo maltrato da cavalgada – onde já se viu uma Amazonas esquecer o sutiã?  Sentei na beirada de terra coberta com um capinzinho ralo.  Pés esticados dentro da água, apenas observava minhas unhas vermelhas em movimento, patinhando pra lá pra cá. 
          Felizmente a vida tem me dado surpresas.  Então acho que está indo bem.  Diz minha natureza que em situações difíceis – estava perdida neste vale, quem sabe encantado –, o melhor é ouvir música e dançar, ou simplesmente deitar e pacientemente observar.  Existe movimento ainda que tudo pareça estático. 

          Cobra-Nudez-Natureza.
          Sexo-Prazer-Liberdade.

          Natureza, as Églogas, os Poemas Pastoris de Teócrito.  O grego de Siracusa, claro: ... com doçura e alma alegre possas tocar a de lindo rosto, a jovem muda, a invisível (*).  Seriam as mulheres e seus sentimentos, como Eco, que por não ter voz própria, era muda, e invisível, por ser apenas voz? 

          A sombra de meus seios oscilava nas águas como a silhueta de pequeninos barcos sobre um espelho: meu rosto, o tripulante.  Longa viagem entre futuro e passado.  Entre a quietude e o perturbador desejo.  Entre meu querer e não-querer.

          Teve a coragem de me dar um livro de Neruda com aqueles versos sublinhados:

          Amo el amor de los marineros
          que besan y se van.
                 
          Dejan una promesa.
          No vuelven nunca más.

          Poderia ter respondido:

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: “La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos.”

          Babaca.  Euzinha aqui, vilipendiada, abandonada, desprezada, sufocada. 
          Bem que ele gostaria de ter sido chamado de canalha, mas agradeci ao “perfeito cavalheiro”, suprema ofensa masculina: o idiota que perde as oportunidades para outros.

          Cartas marcadas-favas contadas-águas passadas.

          Joguei os cabelos para trás, olhar atrevido tal égua empacando, pensei: afinal, sou bonita e gostosa, ou apenas fotogênica, acordo que fiz com a fotografia?

Uma voz grave ecoou – não estranhem, vales encantados são assim:

“Narciso, foste caluniado pelos homens,
por teres deixado cair, uma tarde, na água incolor,
a desfeita grinalda vermelha do teu sorriso.

Narciso, eu sei que não sorrias para o teu vulto, dentro da onda:
sorrias para a onda, apenas, que enlouquecera, e que sonhava
gerar no ritmo do seu corpo, ermo e indeciso...”

Mãos invisíveis acariciavam os seios intumescidos, outrora doloridos.  Sussurros nos ouvidos:

Por aveludadas texturas, cores que se atraem, que se traem
na imaginação do ensejo a fruição de desejo
romper rendas, atravessar teias
escorregadias margens
aveludadas texturas.

          Olhos fechados, lembranças das palavras bíblicas censuradas pela Irmãs dos tempos de colégio:
Teus amores são melhores do que o vinho. Eu te comparo à égua atrelada ao carro do Faraó. 
          Nosso leito é todo relva.

Morna, morna brisa.  Vozes, vozes sensuais:

“Estava perdida lá pelas Minas Gerais –
encantadora.
Que vontade de penetrar nas suas matinhas
de refrescar nos seus corregozinhos
comer franguinho assado – eta gostosura!
Naqueles campos, cavalgar – bela potranca
crinas negras, fogoso olhar.
mordiscar frutinhas, lamber melado.
Roçar o milharal, fazer fubá,
leite no curral.
Trepar no mangueiral
chupar até empanturrar
com tanta doçura.”

Frêmitos corporais.  Sonho, realidade?

De joelhos: Beijos-Um Beijo-Beijo Pra Você. 
De lado, de frente, sentada, deitada, de quatro: estopada pela espada – pensava não mais passaria na fenda de sua bainha. 
E o aroma não sabia de onde vinha. 

Na estrada uma porteira rangente falou:

“E se inda houver amor eu me apresento e me entrego ao princípio do oceano.  Eu me arrebento feliz, atravessada de esperança.  E se inda houver amor, eu simplesmente apago esta ferida do meu sono...”

Lá, no fundo do vale, a visão da Fazendola: numa regalia de almoço, galinha matada, morta – trucidada na hora. Sangue cozido entornado no caldo, delícia de tira gosto. Mandioca frita e vai mais branquinha, tudo isso literalmente na roça, em meio a bambus bananeiras e asneiras.

Notas:
(*). Fragmentos de Sírinx, Teócrito. 
      Tradução José Paulo Paes, 1993.  
- Outros fragmentos intertextuais: Corre mais que a Vela... e Esse Perfume, Emiliano Perneta; Parêmia de Cavalo, Carlos Drummond de Andrade; Viagem sobre o Espelho, Cassiano Ricardo; Águas Passadas, Maria Thereza Noronha, Epigrama, Cecília Meireles; E se Inda Houver Amor, Lucila Nogueira.