Varanda
das Infinitudes
Momentos mágicos: nos finais de tarde
sentava-me debruçado sobre o rio, redigindo anotações na Caderneta de Campo. No
estrondoso rolar das águas, o silêncio.
Movimento provocava quietude. O
ciclo da natureza. Eternidade. Pela manhã, ruidoso despertar com cantos de
pássaros. Depois, o gado pastando – no
entardecer recolhiam-se tal pontos brancos, sumindo, sumindo na paisagem. Pequenas aves ciscavam insetos no capim
pisoteado na tarde que caía. O
anoitecer. Explosões luminosas –
miríades. Gigantescos vagalumes
brilhavam nas montanhas, rios e pedras, descortinando etéreo cenário.
Varanda encantada. Aqui meu escritório, poucos quilômetros serra
acima de Casimiro de Abreu. Além, Macaé,
Campos. Grandes transformações econômicas,
paradoxalmente grandes riscos para vida e a cultura.
Pensava no jantar em São Pedro da
Serra: olhos azul profundo, idade indefinida.
Pele branca. Rugas marcadas,
mostrando o castigo pelo sol tropical.
Lugar inusitado. Poderíamos dizer
pobre, mas sofisticado. Fina louça e
talheres recolhidos aqui e ali. Cadeiras
descasadas carregavam certa nobreza.
Toalha branca, guardanapos tão impecáveis que nem se notavam os puídos
nas pontas, vela acesa na mesa sobre o chão de cimento. Voz suave ia explicando a fondue, falando sua
vida:
Vivo
entre amigos de origem suíça. Na verdade
puro acaso. Viajei mundo afora
procurando antigo amor brasileiro.
Coisas da juventude. Agora vivo
feliz neste lugar. Preparamos vinho
tinto, caldo de carne e especiarias – segredos de cozinheira. Os pequenos escalopes de filé são cozidos
neste molho. Quando tudo parece
terminar, a surpresa: fazemos a cocção de um ovo no resto do caldo, para
finalmente mexermos ligeiramente, formando grumos. Vira uma bela sopa. O deguste final (1).
O azul profundo se despedindo no
cerrar das pálpebras que pareciam respirar, meditar em meio ao invisível.
Pela manhã desci a serra, pensando nos
imigrantes suíços que aqui chegaram pela primeira vez, encantados, dizendo:
este será o nosso Rio Sena. Agora com o
tempo Sana (2). Pensei nos
cafezais, as tropas de mulas levando a colheita, subindo e descendo montanhas
para o distante ramal ferroviário.
Grandes balsas subindo até Cachoeira do Macaé, embarcando sacas de café. Águas passadas.
A noite querendo chegar, Vênus
brilhante caindo para Oeste, já quase desaparecendo no horizonte
montanhoso. A leste, Lua cheia surgindo,
arrastando Júpiter luminoso como nunca.
Corri, peguei a luneta e, emocionado – lá estava o misterioso Urano, tão
perto que parecia uma lua deste planeta gigante. A dança celeste espelhava poesia (3):
Nas horas mortas da noite
Como é doce o meditar
Quando as estrelas cintilam...
Quando a Lua majestosa
Surgindo linda e formosa... (4)
Fiquei pensando na vida. No muito que trabalhei, nas belezas que via
daquela varanda. Magnífico
escritório.
Inicialmente trabalhava apenas com
cálculos de modelos matemáticos, onde, em função do tamanho das manchas verdes
identificadas nesta região e de vários outros parâmetros, calculava a chance de
uma espécie animal sobreviver, ocupando extensas áreas. Depois passei também a fazer trabalhos de
campo, medindo cursos de rio, estradas e demais fatores que poderiam facilitar
ou dificultar a sobrevivência de animais ou vegetais. Estudos importantes na definição de reservas
naturais em equilíbrio com atividades agrícolas, de pecuária e turismo.
Notícia assustadora. Uma das maiores áreas de preservação
ambiental do Estado do Rio de Janeiro, a Reserva Particular do Patrimônio
Natural dos Aymorés, foi invadida em nome do populismo eleitoreiro promovido
pelo governo federal a quem caberia zelar pelas Leis (5). Dezenas e dezenas de espécies animais e
vegetais ameaçadas: árvores cobertas de fungos vermelho-róseos, sinal da pureza
do ar, virando lenha. O Gavião-pato,
espécie em extinção e indicadora da qualidade ambiental de uma área, predado
impiedosamente. O Muriqui perdendo este
corredor ecológico, não conseguindo mais transitar entre fragmentos
florestais. Para não falar no
Mico-leão-dourado, restrito cada vez mais à Reserva de Poço das Antas. Foi uma volta triste. Apeei do cavalo, atravessei a Ponte de Arame
(6) (V. Figura 15). Parado,
observava o Rio Macaé, navegável no passado até aquele ponto. Na minha cabeça a desconstrução da poesia e da
natureza.
Minha terra não tem palmeiras...
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há (7).
Esta noite nem a placidez da varanda
aquietava-me. No sono agitado vi um
grupo de cinco alpinistas comemorando a escalada, pela primeira vez, do Pico do
Peito de Pomba. Um parou na minha frente
falando (8):
O Sana está vivendo uma nova época. Chegou a luz.
Acho importante o Movimento de Defesa do Meio Ambiente no Sana. Dou todo meu apoio e creio que todos devem
apoiar; é preciso preservar a natureza, proteger o que resta em riachos e matas
para nossos filhos e netos. É preciso
reflorestar, não poluir, construir fossas, deixar viver os animais. Enfim, é preciso cuidar do Sana para nossas
crianças.
Sumiu no nada se despedindo
poeticamente:
O filósofo passou a vida estudando,
O cantor passou a vida cantando.
Porém, o mais lindo desta vida,
São dois seres que passam
[a vida se amando.
Agora, caminhando por noturnas praias
infinitas, encontrei dois rapazes deitados na areia, conversando e observando o
céu estrelado:
Keats, a vida é fluida como névoa. Fugidia como águas de um rio. O mar, céu, nossos passos por este mundo, são
tal viagens infinitas. A natureza é
permanente, nós nos vamos, ficam só pegadas.
Acabamos? Alguns até nos vêm e
escutam. Nossas palavras ficaram. A paixão, a beleza da poesia, vence a razão
petrificada no tempo da Ciência – o tempo dos relógios. É como o mar insondável. As ondas são os anos. Oceanos do tempo que recebe o sal do pranto
dos humanos (9).
Shelley, sinto-me solitário tal a Estrela Polar. Fosse eu imóvel como este astro fulgente,
ficaria suspenso como uma luz deserta, a contemplar com a pálpebra imortal
aberta, rodeando a Terra, o humano litoral?
Não! Mas firme e imutável, sempre a descansar no seio de meu belo amor,
para sentir, e sempre, o seu arfar... E assim vivi, como o que espreita o céu e
colhe na visão. Algum novo planeta,
assim fiquei então... (10).
Estranha conversa. Palavras ao vento? Continuei pelas areias. À frente já avistava a silhueta do
promontório rochoso encimado pelo branco barroco da Igreja de São João
Batista. Do outro lado brilhava o Rio
São João de encontro ao mar.
Na escuridão cruzei com um senhor,
sotaque lusitano, que falou:
Sou Latino. Anote
aí. Estive com Casimiro em
Portugal. Ele um garoto, eu lá pelos
meus trinta anos. Publiquei duas décadas
depois A Ciência na Idade Média. Lá,
encontrarás a chave para as quatro estrelas, não vistas mais que da primeva
gente. As estrelas de Dante, o Cruzeiro
do Sul de Casimiro. A bússola dos
viajantes austrais.
Do alto das pedras avistava dois
jovens quase meninos, rindo e escrevendo versos alternadamente nas areias
lambidas pelo salgado do mar e o doce do rio (11):
Logo, quando os corredores ficarem vazios,
E todo o Sanatório adormecer,
Eu sinto que esta vida já me foge
Qual d’harpa o som final,
a febre dos tísicos entrará no meu quarto
trazida de manso pela mão da noite.
E não tenho, como o naufrágio nas ondas
Nas trevas um fanal!
Os meus olhos brilharão como os da fera
Que defende a entrada de seu fojo.
É um suplício atroz!
E pra contá-la falta à lira cordas
E aos lábios meus a voz!
-
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Mas de repente, um clamor estranho
acabou de se ouvir. Parecia o despertar
deste profundo sono. Será a Ária dos Meninos Mortos? Não há árvores, não há brisas, tudo está
quieto para se ouvir a Ária dos Meninos Mortos
(12).
Acordei em paz. Corri para examinar a Caderneta de Campo. Lá,
registrado: Latino Coelho
(1825-1891). Ver “A Ciência na Idade
Média”.
Eternidade das estrelas, da Ciência,
eternidade da Poesia. Nossas matas e
animais sobreviverão.
A vida sempre presente.
Notas:
1.
Fondue Vigneronne
2.
Nome do rio e do Distrito de Macaé, RJ, no sopé da Serra de Friburgo.
3.
No mês de setembro de 2010 foi observada a máxima aproximação de Júpiter da
Terra, nos quase últimos cinqüenta anos, coincidindo também com uma máxima
aproximação de Urano. Ambos podendo ser
observados muito próximos.
4.
Versos da poesia Saudades de Casimiro
de Abreu.
5.
Na madrugada de sete de setembro de 2010, a Fazenda Bom Jardim – entre os
distritos de Córrego do Ouro e Conceição de Macabu, no município de Macaé, RJ,
foi invadida e depredada. O Governo
Federal havia desapropriado esta área para fins de reforma agrária – conforme
publicação no Diário Oficial da União de dois de setembro –, desconhecendo ser
uma RPPN com mais de um milhão e meio de hectares. Passada as eleições, esta fazenda foi
desocupada em dezessete de novembro deste mesmo ano por força de uma liminar de
reintegração de posse concedida pela Justiça Federal.
6.
Ponte pênsil de cabos de aço conhecida como Ponte de Arame
7.
Uma Canção de Mário Quintana.
8.
Declarações e poesia de Norival da Costa Dames, publicadas no Jornal de Sana, Órgão Informativo do Clube
dos Amigos da Natureza, Sana, julho de 1986. Diretor Responsável: Antenor L. Souza
(Presidente). Norival, também conhecido
como Nori, em companhia de outros quatro alpinistas, escalou pela primeira vez
o Pico do Peito de Pomba nesta região em 13 de maio de 1950.
9.
Fragmentos intertextuais de poesias de P.B.Shelley (1792-1822).
10.
Fragmentos intertextuais de poesias de Keats (1795-1821). “Algum novo planeta” é uma homenagem à
descoberta de Urano: o poeta tomou conhecimento ao ganhar o livro Introduction to Astronomy, de John
Bonnycastle, como prêmio escolar em 1811.
11.
Referências a Casimiro de Abreu (1839-1860) e Ascânio Lopes (1908-1929). Abaixo, fragmentos intertextuais de versos
das poesias Horas Tristes e O Sanatório.
12.
Fragmentos intertextuais da poesia Ária
dos Meninos Mortos de Jorge de Lima.
Casimiro
de Abreu, Barra do São João. Foto T.Abritta, 2010.