sexta-feira, 31 de março de 2017

Evanescências...

Minha pequena libélula,
leva no sonho de tuas asas frágeis
a fragilidade das asas dos meus sonhos.
Vinheta, Olga Savary,



Foto T.Abritta

quarta-feira, 29 de março de 2017

Transparências


“a musa não se medusa:
contra o caos
faz música...”


Fragmento do poema “musa militante”, Haroldo de Campos.


Transparências. Foto T.Abritta, 1995.

Um Artigo de Primo Levi


No link abaixo, excelente artigo, focando objetivamente pontos importantes, mas que muitos preferem não falar, neste universo de bajulação e "críticas" de aplausos.
Dentro da perspectiva deste nosso mundo em mutação, se tivesse que dar um conselho, diria que a par de nossa atividade principal, devemos cultivar, com toda dedicação possível, outras habilidades.
          Para os que escolherem uma atividade literária, em última análise, artística, aconselho a ler, ler e ler, tanto a nossa Literatura quanto a Universal. Lembro que, assim como em Ciência, modelos e novas ideias são construídos a partir do conhecimento passado, em Arte não se cria a partir do nada.


          ...e a propósito, uma "aula" de fazer poético:

Discurso Afetuoso

Ó poetas de gabinete,
Que da vida sabeis apenas a lição dos livros,
Vossa poesia é um jogo de palavras.
Vossa poesia é toda feita de habilidades de estilo,
Sem a marca um pouco suja da experiência vivida.

Não sabeis de nenhuma espécie de sofrimento,
De nenhum dos aspectos sedutores do mal,
Não sabeis de nada que está realmente na vida.

Não vos inquieta o desejo de quebrar a monotonia,
A exasperada fadiga das coisas iguais,
A saborosa audácia do mau gosto.

Tudo em vós é correto, frio, sem surpresas.

Ah, tudo que sabeis é através dos livros.
Não sofreis a curiosidade viciosa das aventuras,
Nem a mágoa dos meses vividos à toa,
Nem o bocejo que a mulher tão desejada provocará um dia.
Não conheceis o remorso das devassidões
E a desvairada esperança que há num amanhecer depois
da noite perdida.

Para vós não existe a vida: existem os temas poéticos.


Ribeiro Couto

Corrigindo O Concretismo


Relendo o número especial do Suplemento Literário do Estado de Minas Gerais sobre o Concretismo, observei que o poema soneto burocrático de José Lino Grünewald havia sido “corrigido”, em uma total mutilação literária, com a introdução de vírgulas, maiúsculas e erros de grafia.  Abaixo apresento a versão “corrigida”, publicada neste suplemento e a versão original:


soneto burocrático
José Lino Grünewald, 1977.
Versão Suplemento Literário do Estado de Minas Gerais,
outubro de 2006, 50º poesia concreta.


Sálvio melhor juízo doravante,
Dessarte, data vênia, por suposto,
Por outro lado, maximé, isso posto,
Todavia deveras, não obstante

Pelo presente, atenciosamente,
Pede deferimento sobretudo,
Nestes termos, quiçá, aliás, contudo
Cordialmente alhures entrementes

Sub-roga ao alvedrio ou outrossim
Amiúde nesse interim, senão
Mediante mormente, Oxalá quão

Via de regra te-lo-ão enfim
Ipso facto outorgado, mas porém
Vem substabelecido assim, amém.



soneto burocrático
José Lino Grünewald, 1977.
Versão escreviver – Perspectiva, 2008. 
Organização José Guilherme Correa e revisão Augusto de Campos.


salvo melhor juízo doravante
dessarte data vênia por suposto
por outro lado maximé isso posto
todavia deveras não obstante

pelo presente atenciosamente
pede deferimento sobretudo
nestes termos quiçá aliás contudo
cordialmente alhures entrementes

sub-roga ao alvedrio ou outrossim
amiúde nesse interim senão
mediante mormente oxalá quão

via de regra te-lo-ão enfim
ipso facto outorgado mas porém
bem substabelecido assim amém


Speculum Majus


Espelho Maior
Espelho Mágico

Mostre os segredos
no reflexo deste olhar.

Decifre seu enigma
desnude seu pensar.

Envolva-me com estes cabelos
a intimidade a desejar.

Aproxime sua boca

o beijo a incendiar.

Sabores Mineiros


Prezada mui gentil
clássica elegante
senhora.

Lábios molhados
água na boca
aprecio seu falar.

Imaginária lambidinha
nesta fofinha rosquinha
(de polvilho).

Desejos de beliscar
a quente broinha
(de milho).

Comer seu queijinho

com goiabada pra festejar.

O Esplendor da Natureza


Poema Inuit registrado há mais de um século no extremo norte da Groenlândia, que fala da esperança, das cores pintadas no céu a cada renascer do sol (*):

Só existe uma grande Verdade
A única Verdade
Viver
Ver
Nas caçadas, nas jornadas
O grande dia que renasce
A luz que inunda o mundo


Nota:

(*). Versão em Português a partir de textos em Francês e Inglês.

segunda-feira, 27 de março de 2017

a leaf falls

l(a

le
af
fa

ll

s)
one
l

iness

e. e. cummings

         
Um poema feito de apenas uma palavra e uma frase: loneliness, (solidão) –  letras fora do parênteses - e a leaf falls (uma folha cai) – letras dentro do parênteses.


domingo, 26 de março de 2017

Fotografia Conceitual


         Na Arte Conceitual, a ideia ou conceito é o aspecto mais importante da obra.


                                                                        FORMA



                           CONTEÚDO

Fotos guy-bourdin.


aequus nox


equinócio outonal
nesta boca sorridente
o brilhar facial

nesta boca desejada
seu brilhar carnal


                                                                Foto T.Abritta



quarta-feira, 22 de março de 2017

Sinfonia de Outono


Foto T.Abritta, março de 2017.

...Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...


                                      De Canção de Outono, Cecília Meireles.

terça-feira, 21 de março de 2017

O Azul do Firmamento: Uma Crônica Lírica


          Pensando em Lirismo como uma fusão entre palavra e a musicalidade do Poetar, O Azul do Firmamento seria uma Crônica Lírica, no sentido que usa recursos da Poética, como ritmo, musicalidade e intertextos de fragmentos poéticos, em diálogo com uma imagem de grande carga sentimental.
          Notem que o estilo deste texto não se aproxima do gênero literário conhecido como Prosa Poética, que é caracterizado pela presença de parataxe – sequência de frases ou períodos, geralmente simples e curtos, sem conjunções coordenativas ou subordinativas.

          E os não-ditos, do Poetar-Pensante-Reflexivo?
          Bem, ficam como a foto imaginária ou real, inspiradora destas reflexões fotográfico-poético-sentimentais.
          Luzes de Papel...


domingo, 19 de março de 2017

90 anos da revista Verde

Verde que te quero verde

          Sempre que pensamos na história de um jornalismo mais cultural e literário, as lembranças mais imediatas são algumas publicações dos anos 60 e 70, como a revista Senhor onde escreviam Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Jorge Amado , o tablóide O Pasquim e o jornal literário OpiniãoOutra publicação que marcou época foi a Revista Civilização Brasileira, editada por Ênio Silveira, tendo como colaboradores Celso Furtado, Nelson Werneck Sodré, M. Cavalcanti Proença, Otto Maria Carpeaux, Dias Gomes, Moacyr Felix e muitos outros, que nos perdoem as injustiças nas omissões das citações.  Infelizmente esta revista foi esquecida e enterrada no tempo, deixando de trazer substância importante para os chamados “intelectuaisque se calam hoje em dia, que muitas das críticas feitas às violências praticadas no passado são atuais para os governantes de hoje.  Nestes tempos de “apagão ético” e desesperança em que vivemos, é importante olharmos o passado garimpando exemplos que nos animem em um movimento de resistência cultural.  Neste sentido seria interessante retrocedermos alguns anos, quando na Zona da Mata Mineira foi lançada, há mais de oitenta anos, uma revista literária que repercutiu em grandes centros como Rio e São Paulo, sensibilizando a sua intelectualidade com o idealismo de um grupo de jovens mineiros.  Estamos falando da revista Verde, que significava mocidade, lançada em setembro de 1927, na cidade de Cataguases, por poetas e literatos que ecoavam da Semana de Arte Moderna de 1922, com suas irreverências criativas e a luta pela não acomodação da culturaEste grupo constituído por: Henrique de Resende, Ascânio Lopes, Rosário Fusco, Guilhermino César, Christophoro Fonte-Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco Peixoto lançaram o Manifesto do Grupo Verde de Cataguazes, que transcrevemos, em parte, abaixo:

Resumindo
1-    trabalhamos independentemente de qualquer outro grupo literário.
2-    temos perfeitamente focalizada a linha divisória que nos separa dos demais modernistas brasileiros e estrangeiros.
3-    nossos processos literários são perfeitamente definidos.
4-    somos objectivistas, embora diversíssimos, um dos outros.
5-    não temos ligação de espécie nenhuma com o estilo e modo literário de outras rodas.
6-    queremos deixar bem frisado a nossa independência no sentido “escolástico”.
7-    Não damos a mínima importância à crítica dos que não nos compreendem.
            E é isso.

          Estes poetas e literatos, quase meninos – Rosário Fusco, por exemplo, tinha apenas dezessete anos –, conseguiram levar sua mensagem à intelectualidade deste tempo, em uma época sem Internet, escrevendo muitas cartas e telegramas. Com o segundo número de Verde começaram chegar a esta cidadezinha da Zona da Mata, artigos, notas, cartas, poemas e desenhos de Mário e Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Graça Aranha, Afonso Arinos de Melo Franco, Marques Rebelo, Tristão de Athayde, João Alphonsus, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e muitos outros.
          Ribeiro Couto escrevia: Nem Astolfo Dutra, que chegou à Presidência da Câmara dos Deputados, nem Astolfo de Resende, que se tornou um dos maiores jurisconsultos do país, ambos cataguasenses, conseguiram revelar Cataguases, os meninos da Verde o fizeram.  Mário de Andrade enviava cartas, bilhetes e telegramas com conselhos e descomposturas.


O celeiro da Verde: alunos e jovens professores do Ginásio de Cataguases, maio de 1927.  Nesta foto identificamos Guilhermino César – o quarto da esquerda para direita, na terceira fila, em pé – e Oswaldo Abritta – o quinto da esquerda para direita, na segunda fila, também em pé.  Podemos identificar, ainda, Oduvaldo, irmão de Oswaldo – o segundo da esquerda para direita, sentado na primeira fila –, que ingressava no colégio com uma bolsa de estudos da prefeitura para estudantes carentes.  Foto acervo Teócrito Abritta.

          Foram lançados apenas seis números da revista Verde, o primeiro em setembro de 1927 e o último em maio de 1929 dedicado a Ascânio Lopes, um dos grandes poetas do grupo, que morreu do “peito” aos vinte e três anos de idade, e com ele morreu a Verde.
          A revista Verde acabou, mas os seus ideais éticos e culturais foram levados a este Brasil afora pelos seus idealizadores que se tornaram professores, juízes, advogados e jornalistas.

          as coisas efêmeras são belas.  Verde foi bela porque efêmera.  Soube viver e morrer, depoimento de Graça Aranha a Henrique de Resende.

Notas:
- Verde que te quero verde, da poesia Romance Sonâmbulo – Federico Garcia Lorca.
- Crônica publicada em Memória, História e Imaginação



quarta-feira, 15 de março de 2017

Viola d’Amore


Romantismo Pós-moderno



 Texto, foto e composição gráfica T.Abritta.

O Ralo


onde está
a inquietude
o inconformismo
a criatividade
de outrora?
onde estamos?


O Ralo.  Foto e Criação Gráfica T.Abritta.

sábado, 11 de março de 2017

Impermanências


o que trouxe
não era vidro
nem se quebrou
era gelo e derreteu


Lago Grey, Parque Nacional Torres del Paine, Chile.
Foto T.Abritta, 2002.


sexta-feira, 10 de março de 2017

A Pele da Cor


A Cor da sua pele
Cor de uma folha nua
Ser que insinua


A Pele da Cor.  Foto T.Abritta, 2017.

domingo, 5 de março de 2017

O Colecionador e o Antiquário


...O nosso colecionador sentia-se como Policarpo Quaresma.  Indignava-se com a imagem daquele ex-ministro-cantor saracoteando, enquanto a cultura brasileira embarcava em viagem sem volta no Expresso 2222.  Em suas missivas à imprensa, enumerava até o último algarismo os milhares de documentos, fotografias, mapas e obras de arte desaparecidos com a desídia governamental.  “O populismo, em busca do voto fácil, é semeador da ignorância, pobreza e corrupção”.  Assim terminava invariavelmente seus desabafos. 
Diante daqueles que cultuavam a informática como nova religião, gostava de desafiá-los em seu próprio território:
– O que é uma porta lógica AND ou quem sabe NAND?  E não sabiam a OR ou simplesmente NOR.  Meros apertadores de botões, sem raciocínio ou vontade própria.  Uma carneirada a serviço do poder. 
A vida não era apenas amargura.  Transformava-se completamente com a efusiva recepção do Antiquário de Itaipava.
– O Senhor está mais magro.  A Senhora mais jovem.  Estamos mudando de ramo.  As peças estão baratíssimas.  Arrematei quase tudo de um luxuoso, e antigo, navio europeu que foi desmontado num estaleiro de Niterói.  Amanhã faremos um leilão.

– Quanto dão?  Quanto dão? 
– Quem dá mais?  Quem dá mais? 
– Esta bengala de castão de ouro!
– Esta arca colonial!
– Este faqueiro de prata!
– Esta louça azul de Macau!

– Com sorte podem ver a fumaça da última sopa na terrina ou os vestígios dos lábios da duquesa na borda daquela xícara com asa quebrada!
Meses depois, nova visita, mesma recepção:
– O Senhor está mais magro.  A Senhora mais jovem.  Estamos mudando de ramo.  As mesmas peças, apenas mais poeira.
Nesta noite Natanael escutou o apito de um luxuoso e antigo navio.  Em sonho de vida ou morte, sua coleção navegou serra de Petrópolis acima. 
O Antiquário de Itaipava exultava de alegria:
– Vendi tudo!  Como lembrança, apenas a fotografia desta igrejinha de Minas.  Já vem com dedicatória.  Mudarei de ramo.  Farei Leilão de Jardim.

Quem me compra um jardim com flores?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Quem me compra este formigueiro?
E a cigarra e a sua canção?
    (Este é o meu leilão!)

         Finalmente, Natanael partiu para férias eternas, embarcando no trem de ferro da Central do Brasil rumo à mítica Escola de Grumetes de Pirapora – lembranças do tio Ítalo da infância.  Que aprendeu a arte de navegar, e pelo São Francisco alcançou mares infinitos. 


Escola de Aprendizes de Marinheiros, Pirapora, Minas Gerais. 
Residência do Comandante, 1911.
Foto do Acervo do Arquivo Nacional.

Será que uma pequena invasão da Realidade tira o encanto da Magia Ficcional?
Mas não resisti ao ver esta foto do “Tio Ítalo”, tão garboso, em seu uniforme de Suboficial.


Acervo Teócrito Abritta.

Notas:
-Intertextos com fragmentos das poesias Leilão de Mauro Mota e Leilão de Jardim de Cecília Meireles.
-Fragmento do conto O Colecionador e o Antiquário publicado em Memória, História e Imaginação.