Verde
que te quero verde
Sempre
que pensamos na história
de um jornalismo
mais cultural e literário,
as lembranças mais
imediatas são algumas publicações dos anos 60 e 70, como
a revista Senhor – onde escreviam
Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Jorge Amado
–,
o tablóide O Pasquim e o jornal literário Opinião. Outra publicação que
marcou época foi a Revista Civilização
Brasileira, editada por Ênio Silveira,
tendo como colaboradores Celso Furtado, Nelson Werneck Sodré, M. Cavalcanti Proença,
Otto Maria Carpeaux, Dias Gomes, Moacyr
Felix e muitos outros, que nos perdoem as injustiças nas omissões das citações. Infelizmente
esta revista foi esquecida e enterrada
no tempo, deixando de trazer substância importante para os chamados
“intelectuais” que
se calam hoje em
dia, já
que muitas das críticas
feitas às violências
praticadas no passado são atuais para os governantes de hoje. Nestes tempos de “apagão ético” e desesperança em
que vivemos, é importante
olharmos o passado garimpando exemplos que nos animem em um movimento de
resistência cultural. Neste sentido
seria interessante retrocedermos alguns anos, quando na
Zona da Mata Mineira foi lançada,
há mais de oitenta anos, uma revista literária
que repercutiu em
grandes centros
como Rio e São Paulo, sensibilizando a sua
intelectualidade com
o idealismo de um
grupo de jovens
mineiros. Estamos falando da revista
Verde,
que significava mocidade,
lançada em
setembro de 1927, na cidade de Cataguases, por
poetas e literatos
que ecoavam da Semana de Arte Moderna de 1922, com
suas irreverências
criativas e a luta pela não acomodação da cultura. Este grupo constituído por:
Henrique de Resende, Ascânio Lopes, Rosário
Fusco, Guilhermino César, Christophoro
Fonte-Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares
e Francisco Peixoto lançaram o Manifesto do Grupo Verde de
Cataguazes, que
transcrevemos, em parte,
abaixo:
Resumindo
1-
trabalhamos independentemente de qualquer
outro grupo
literário.
2-
temos perfeitamente focalizada a linha
divisória que
nos separa dos demais
modernistas brasileiros e estrangeiros.
3-
nossos processos literários
são perfeitamente
definidos.
4-
somos
objectivistas, embora diversíssimos, um dos outros.
5-
não temos ligação de espécie
nenhuma com o estilo
e modo literário
de outras rodas.
6-
queremos deixar bem frisado a nossa independência no sentido “escolástico”.
7-
Não damos a mínima importância
à crítica dos que
não nos
compreendem.
E é só
isso.
Estes
poetas e literatos,
quase meninos – Rosário Fusco, por exemplo, tinha apenas dezessete anos –, conseguiram levar
sua mensagem
à intelectualidade deste tempo, em uma época sem Internet, escrevendo muitas cartas
e telegramas. Com
o segundo número
de Verde
começaram chegar a esta cidadezinha da Zona da Mata, artigos, notas,
cartas, poemas
e desenhos de Mário e Oswald de Andrade,
Guilherme de Almeida, Graça Aranha, Afonso Arinos de Melo Franco,
Marques Rebelo, Tristão de Athayde, João Alphonsus, Carlos Drummond de Andrade,
Pedro Nava e muitos outros.
Ribeiro
Couto escrevia: Nem Astolfo Dutra, que chegou à Presidência da Câmara dos Deputados, nem
Astolfo de Resende, que se tornou um dos maiores jurisconsultos do país, ambos
cataguasenses, conseguiram revelar Cataguases, só os meninos
da Verde o fizeram. Mário de Andrade enviava cartas,
bilhetes e telegramas
com conselhos
e descomposturas.
O celeiro
da Verde: alunos
e jovens professores
do Ginásio de Cataguases, maio de 1927.
Nesta foto identificamos Guilhermino César – o quarto da esquerda para
direita, na terceira fila, em pé – e Oswaldo Abritta – o quinto da esquerda
para direita, na segunda fila, também em pé.
Podemos identificar, ainda, Oduvaldo, irmão de Oswaldo – o segundo da
esquerda para direita, sentado na primeira fila –, que ingressava no colégio
com uma bolsa de estudos da prefeitura para estudantes carentes. Foto acervo Teócrito Abritta.
Foram lançados apenas
seis números
da revista Verde, o primeiro
em setembro
de 1927 e o último em
maio de 1929 dedicado a Ascânio Lopes, um
dos grandes poetas
do grupo, que
morreu do “peito” aos vinte e três anos de
idade, e com ele
morreu a Verde.
A revista
Verde
acabou, mas os seus
ideais éticos
e culturais foram levados a este Brasil afora
pelos seus
idealizadores que se tornaram professores, juízes, advogados
e jornalistas.
Só as coisas efêmeras são belas. Verde foi bela porque efêmera. Soube viver e morrer, depoimento
de Graça Aranha
a Henrique de Resende.
Notas:
- Verde que te quero verde, da poesia Romance Sonâmbulo – Federico Garcia
Lorca.