sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Sabores Mineiros


Prezada mui gentil

clássica elegante

senhora.

 

Lábios molhados

água na boca

aprecio seu falar.

 

Imaginária lambidinha

nesta fofinha rosquinha

(de polvilho).

 

Desejos de beliscar

a quente broinha

(de fubá).

 

Comer seu queijinho

com goiabada pra festejar.




 

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Algumas observações em rochas vulcânicas


          Nas fotos 1 e 2 apresentamos os dois lados de uma rocha vulcânica com aproximadamente 18 cm em sua maior dimensão.

          Como podemos observar, algumas rochas vulcânicas apresentam pequenas cavidades esféricas ou de outras formas, originadas pela expansão dos gases durante a sua efusão. Quando estas cavidades estão vazias são chamadas de vesículas.  Quando preenchidas por minerais secundários são chamadas de amígdalas.

Foto 1

Foto 2


sábado, 6 de novembro de 2021

Poema Emily Dickinson


A Face que deixamos a nos representar –

Nem que seja por um Dia

Como por Cem Anos, ausente fica

Quando se distancia

 

Tradução Teócrito Abritta


Mar Absoluto.  Óleo sobre tela, Humberto Carneiro Ribeiro, 2004.

Foto T.Abritta, 2005.




sexta-feira, 8 de outubro de 2021

O Canto da Cigarra


romântico e poético.

um cântico em duas vozes

uma literal outra visceral

     [intimista e silenciosa.

 

escutá-lo pode ser um passo atroz

diz o que não se quer dizer

ou o que jamais seria dito

 

canta o verso

mas revela a paisagem

do reverso...



 

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Haikai Noite Estrelada


silêncio noturno

tremeluzir estelar

brilha linda noite

A Noite Estrelada. Vincent van Gogh, 1889. 

Nota: No Haikai, na sua simplicidade, o primeiro verso com cinco sílabas poéticas, o segundo com sete e o terceiro e último com cinco (5/7/5) é uma celebração da Vida e da Poesia, bem como um paralelo entre a Vida e a Natureza. Ou seja, tem todo um envolvimento filosófico. O primeiro verso é o silêncio; o segundo o movimento, a quebra da quietude. Do encontro destes elementos surge no terceiro verso a iluminação poética que consiste em voltar ao silêncio inicial, só que agora carregado de significações.

 



sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Vida de estátua


na escuridão na chuva no sol

dia após dia

 

assim sou

assim estou

 

carnes de cerâmica

duras curvas de nudez

 

a vestir-me, apenas

tênue pátina que o tempo fez.

 

venha, toque-me

liberte segredos inaudíveis

onde desejos jamais pulsarão

 

vida de estátua


Litoral de Alagoas. Foto T.Abritta, 2010.


 

sábado, 31 de julho de 2021

Catedrais, Igrejas e Capelinhas


          Minas tem mistérios.  Talvez impenetráveis.  Reside aí o fascínio.  Assim pensava, olhar perdido, focado no infinito. O sol forte.  A sombra da Igrejinha de Nossa Senhora do Ó como proteção.  Nome enigmático de santa.  Mas nesta verdadeira confraria de Ós espalhada por aí, não foi difícil descobrir sua origem.  Nasceu Nossa Senhora do Parto, lá na antiga Toledo do século sete.  Nas liturgias, invocações exclamativas: O Sapientia, O Clavis David, O Emmanuel. Mas ao povo, criatividade simplificadora.  Até a nobreza do Latim e alusões ao Antigo Testamento ignoradas.  Tudo virou o simples Ó de invocação à Virgem.  A Nossa Senhora do Ó.  Pequena e majestosa, nos fundos de um largo ladeiroso, riscado pela erosão das enxurradas, mas acolhida pelo adro de pedras ladeadas por verde capim de perpétua esperança.  Misteriosa, olha-nos com sua fachada facetada.  Porta central, ladeada por duas janelas laterais.  Encimada, no centro, pela pequena torre do sino.  Ode à simplicidade arquitetônica.  Uma constante em outros povoados e vilas mineiras. 

          Teria algum significado?  Nervuras e arcobotantes nas catedrais medievais conspiravam para alçar às alturas dos céus, tentando reduzir o homem diante do poder divino.  O fausto, a riqueza e dramaticidade de algumas igrejas mineiras afugentariam os espíritos malignos das montanhas.  E a simplicidade destas capelinhas?  Só o vento pode responder...

Foto Chapada, Ouro preto, 2021©



quarta-feira, 12 de maio de 2021

O trono manchado de sangue

          Ontem assisti ao filme “O trono Manchado de Sangue”, de Akira Kurosawa (1957), considerado uma das melhores adaptações de Macbeth, onde a trama é transposta para Japão medieval. 

          A atuação de Toshiru Mifune, como sempre, excepcional. 

 

          O impressionante é a aproximação desta monumental peça de Shakespeare com o Brasil de hoje, neste tempo de homens públicos sem honra. 

          Deixo aqui algumas frases dos diálogos, bem como chamo atenção para o título do filme em português:

 

"A Maldade sempre acompanha a Ambição".

"Não queira tantas Honrarias de modo a perder a Honra".

 

"...no more sleep."







sábado, 8 de maio de 2021

Um poema a quatro mãos


Palavras “apropriadas”, com uma pitada

de “paisagismo” verbi-visual. 

Vou tentar

...neste restinho de noite

ter algo mais particular

 

talvez um sentimento

uma ideia poesia ou fotografia

 

quem sabe, uma música

pensamento

ou argumento.

 

Ora, mais isto

já não é poesia?

 

afinal, melancolia

rima com harmonia.

Júpiter e Lua. Foto T.Abritta


quarta-feira, 28 de abril de 2021

Sombra

 Poema publicado no Caderno Literário Pragmatha, janeiro de 2021-Edição 92, página 40.






quarta-feira, 7 de abril de 2021

Pé-rapado


Antigamente as igrejas e prédios públicos, tinham e suas entradas objetos como este da foto abaixo,  para serem usados pelos pedestres para raspar a lama das solas dos sapatos antes de entrarem nos recintos.

Somente os mais pobres tinham os pés sujos de barro, pois os cidadãos abastados chegavam a cavalo, de charrete ou mesmo liteira, e, portanto, não sujavam seus sapato e botas. 

Assim surgiu a expressão "pé-rapado" para designar (pejorativamente) os cidadãos das classes mais baixas. 

Limpa botas nas entradas das igrejas.  Ouro Preto, MG ©


quinta-feira, 18 de março de 2021

Salares do Atacama


          A cadeia montanhosa dos Andes é do ponto de vista geológico muito jovem, com idade estimada entre 40 e 50 milhões de anos.  Foi formada com a pressão da placa tectônica do Pacífico sobre a placa da América do Sul.  Até então, toda esta região estava no fundo do oceano, inclusive o Deserto de Atacama. 

          Na Foto 1 mostramos uma lagoa de altitude – mais de três mil metros de altitude –, no Deserto de Atacama já próximo dos Andes.  Em suas margens vemos a formação de camadas de sal (outrora no fundo do oceano) trazidas pelas águas do derretimento das geleiras durante o verão. 

Foto 1.  T.Abritta, 2000

 

          Na Foto 2 podemos ver algumas placas formadas por camadas de sal colhidas neste salar.

          Na foto 3, temos uma destas placas fotografada na contraluz.

Foto 2.

 

Foto 3.


 




 

quinta-feira, 11 de março de 2021

Poeminho Romboédrico


o que te trouxe

não foi gelo

nem derreteu

 

foi um beijo cristalino

das distantes montanhas

lá das Minas Gerais

Calcita (Ouro Preto, MG).  Foto T.Abritta.



 

Carregando Pedras: Quartzo


          O quartzo, dióxido de silício, SiO2, pertence ao sistema de cristal hexagonal. A forma de cristal idealizada é um prisma de seis lados, que, em cada um desses lados, possui outras pirâmides com também seis lados.

Na natureza, cristais de quartzo são muitas vezes irregulares, distorcidos, desenvolvido com cristais adjacentes de outros minerais, ou mesmo com faces cristalinas difíceis de identificar.  Ver fotos abaixo:

Quartzo (Diamantina, MG).  Foto T.Abritta.


quarta-feira, 10 de março de 2021

Templo Romano em Évora

Templo Romano em Évora, Portugal, como uma metáfora da nossa sobrevivência a estes tristes dias de violência e irracionalidade. 

Foto T.Abritta, 2003.

A Porta

 

A porta que não vai a lugar nenhum e mesmo assim insistimos em seguir por ela.

A Porta ©



domingo, 21 de fevereiro de 2021

Outono


         Outono é uma estação do ano, marca no ritmo da Natureza.  Folhas secam, galhos nus, hora de recolhimento, de descanso para enfrentar as dificuldades da próxima estação.  Tempos de migração para milhares de aves que atravessam o Mundo com as mudanças do clima.

         Que tal um paralelo entre a Vida e o ritmo da Natureza?

         Observe as árvores, arvore!

         Deixe os pensamentos ‘migrarem’, invadirem seu íntimo, traírem seus segredos.


Foto T.Abritta, 1977.

 


domingo, 14 de fevereiro de 2021

A Lavradora


...lavra

   a terra

   a dor.


   semeia sonhos

   emoções.

 

colhe seus desejos

nas embaralhadas

                              [cores

de sua paleta de

                              [amores


Foto T.Abritta, 2013


 

 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Florescer

 

O inesperado é fabuloso.

Fundir-nos com a natureza,

talvez seja a mais real forma

da presença de nosso ser:

Observação, contemplação,

Paz...

 

entre espinhos do cacto duro

delicado sorriso do recôndito botão.

de seus grandes lábios róseos,

surge veludínea vermelha pétala.

                                                                                ©

 

no ondulante abrir labial,

floresce sedosa, perfumada

oferecida flor.

©

                                                                            

 



 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Haikai


nesta noite escura

triste solitário banco

espera por ninguém

Noite, janeiro 2021 ©

 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

As Ruínas de Selinute


         Estava iniciando um texto sobre minha primeira viagem pela Sicília.  Falaria sobre Palermo, Monreale, a pequenina Érice e a mararavilhosa Magna Grécia.  Mas, frente ao poema de Murilo Mendes, tudo mudou.

Palavras desabaram, renderam-se às Ruínas de Selinute.

 

Correspondendo a fragmentos de astros,

A corpos transviados de gigantes,

A formas elaboradas no futuro,

Severas tombando

Sobre o mar em linha azul, as ruínas.

 

         Há mais de trinta anos me emocionei com aquelas ruínas.  Caminhei entre suas pedras, fotografei ranhuras, fendas, colunas nascidas verticais partidas em sua morte horizontal.  Mas apenas hoje encontrei palavras para narrar as Ruínas de Selinute.

 

Severas tombando

Compõem, dóricas, o céu largo.

Severas se erguendo,

Procuram-se, organizam-se,

Em forma teatral suscitam o deus

Verticalmente, horizontalmente.

 

         O que diziam as imagens?  O que vi da outrora tridimensional Selinute, agora na horizontal-vertical dimensão daqueles slides – cromo, como alguns chamavam.  Eu prefiro slides.

         E minha volta a Selinute acabou em uma viagem fotográfica-arqueológica.

         Comecei a “escavar” até chegar às camadas mais profundas daquelas trinta caixas com material fotográfico: slides acomodados em folhas de polipropileno – vinte e cinco em cada uma –, tiras de negativos, material diverso, como tesouras, pinças, luvas, pincéis e até caixas de molduras de slides esperando novos fotogramas que nunca mais chegaram.  Depois de andar pelos quatro cantos do mundo e por todo Brasil, através mais de dez mil imagens, chego, finalmente, às ruínas desejadas. 

         Entre filmes negativos coloridos e slides, vou examinando cada fotograma.  Algumas imagens foram capturadas com o legendário Kodachrome e com a câmera Olympus OM-1.  Este filme resistiu de 1935 a 2009, quando declarado oficialmente morto.  Lembro-me que apenas vinte e cinco laboratórios no mundo revelavam esta película.  Para nós, o mais próximo era no Panamá. 

         Pego a mesa de luz, limpo seu vidro, ligo na tomada, aperto o botão de partida da lâmpada, e as imagens saltam nos olhos, ampliadas por uma lupa. 

         Monto o velho projetor Cabin e, de sua lente luminosa, as Ruínas de Selinute brilham na parede.  Enormes pedras tombadas vão subindo a colina desta fantástica cidade da Magna Grécia

         A História vai falando dos horrores das guerras que levaram a cidade rival Segesta a tanta destruição com o auxílio dos Cartagineses seus aliados.  Mais guerras.  Agora os Romanos e depois, já na era Bizantina, a fúria da Natureza com seus terremotos. 

         Hoje, apenas as fantásticas Ruínas de Selinute testemunhando a insensatez humana, a nossa fragilidade diante da Natureza tão mal tratada. 

 

         Como um tributo a esse arquivo fotográfico, que tantas lembranças me trouxe, escrevi em uma folha de papel, guardando cuidadosamente junto com as imagens:

 

Inconscientes Fotográficos

 

                  Tal luz na pedra escura a História passa

cenários ficam – muros rochas arquiteturas de alegrias

cores de sofrimentos.

A fotografia.

Outrora em cristais de prata

hoje pixels, registros numéricos.

 

Alfinetadas na imaginação

dores no coração

sombras de paixão

reviravoltas da emoção.

As distantes e mudas ruínas, agradecidas, pareceram responder:

 

Nossa medida de humanos

– Medida desmesurada –

Em Selinute se exprime:

Para a catástrofe, em busca

        Da sobrevivência, nascemos.

Um templo já restaurado das Ruínas de Selinute. Captura digital da imagem

 de uma projeção de slide.

Foto original: cromo colorido.  T.Abritta, 1979.

 

Nota:

 - Em negrito versos do poema As Ruínas de Selinute, Murilo Mendes.

 - Publicado em “Os Meus Papéis”.





 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Insônia

 

“Insomnia I”. Remedios Varo, 1947

 

 

Não durmo, nem espero dormir.

Nem na morte espero dormir.

 

Espera-me uma insônia da largura dos astros,

E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

 

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,

Não posso escrever quando acordo de noite,

Não posso pensar quando acordo de noite

Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

 

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

 

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,

E o meu sentimento é um pensamento vazio.

Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam

Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;

Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam

Todas aquelas de que me arrependo e me culpo

Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,

E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

 

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.

Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.

Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.

Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,

Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

 

Estou escrevendo versos realmente simpáticos

Versos a dizer que não tenho nada que dizer,

Versos a teimar em dizer isso,

Versos, versos, versos, versos, versos...

Tantos versos...

E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

 

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.

Sou uma sensação sem pessoa correspondente,

Uma abstração de autoconsciência sem de quê,

Salvo o necessário para sentir consciência,

Salvo sei lá salvo o quê...

 

Não durmo. Não durmo. Não durmo.

Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!

Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

 

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...

Vem, inutilmente,

Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...

Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,

Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,

Segundo a velha literatura das sensações.

 

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.

O meu cansaço entra pelo colchão dentro.

Doem-me as costas de não estar deitado de lado.

Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.

Vem, madrugada, chega!

 

Que horas são? Não sei.

Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,

Não tenho energia para nada, para mais nada...

Só para estes versos, escritos no dia seguinte.

Sim, escritos no dia seguinte.

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

 

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.

Paz em toda a Natureza.

A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.

Exatamente.

A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.

Costuma dizer-se isto.

A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,

Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.

Exatamente. Mas não durmo.

 

Insônia, Fernando Pessoa