“Estamos no ano de 1849 na cidade de
Salvador, neste país ensolarado chamado Brasil.
Fico a definhar nesta solitária cela.
Pelo menos da pequena janela vejo o azul do mar e ainda acordo com as
rezas das matinas na capela do convento.
Acham que estou louco e acabam falando na minha frente coisas que um
doente jamais deveria escutar. Não me
preocupo, pois, religioso que sou, sei que o fim está próximo e minha alma
entregue ao julgamento de Deus.
Foram sete anos, aqueles de 1841 a
1848, no interior da Bahia trabalhando duro, sofrendo de malária – que não
poupava nem as mulas – e a sífilis a corroer, a cobrir meu corpo de abscessos,
dores, tremuras sem fim. No início
unguentos ou pasta de potassa e antimônio davam algum alívio. Hoje, nem mercúrio e iodeto de potássio minoram
a doença.
Eu, Cônego Benigno José de Carvalho e
Cunha, vim ao mundo no ano de 1789 na bela terra portuguesa de Trás-os-Montes. Estudei línguas orientais e matemática na
Universidade de Coimbra. Nas terras
brasileiras desembarquei em 1834.
O motivo desta carta não é minha vida
pessoal. E sim, a confissão de uma
verdade que gostaria de revelar antes de partir deste mundo.
Tudo começou quando se achou na
Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, um manuscrito de 1753. Tão corroído estava pelas traças que
impossibilitava a identificação de seu autor.
A escrita falava de uma cidade perdida no sertão da Bahia próxima dos
rios Paraguaçu e Uná. Descrevia
construções fantásticas e obeliscos gigantescos erguidos em granito. Inscrições em língua desconhecida foram
talhadas nas paredes desta cidade. Nos
rios e córregos faiscava o brilho do ouro e muita prata.
Fui convocado para uma investigação
destes fatos por ser o delegado na Bahia do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro (IHGB). Seguindo as
indicações do manuscrito cheguei ao que seria a cidade perdida no alto da Serra
do Sincorá. Concluí tratar-se de uma
velha missão jesuítica totalmente desconhecida pela História e Ciências Geográficas. Com esta confissão registro que, além dos
Sete Povos das Missões no sul do Brasil – em ambos os lados de suas fronteiras
–, existiu também esta comunidade que devemos chamar de “A Oitava Missão”. Jamais saberemos o que ocorreu por aqui, o
que levou ao abandono desta cidade. A
única voz presente são as ruínas em pedra das velhas oficinas jesuíticas
regidas pelo mesmo padrão arquitetônico: pavilhões constituídos de pequenas
salas, com apenas uma porta e janela.
Infelizmente quis o maligno que
descobríssemos diamantes nesta região.
De comum acordo com meus superiores mandei para o IHGB relatórios não
conclusivos. Hoje sofro a pagar os
pecados desta fortuna tão ingrata para mim.
Foram muitos os castigos. Uns aproveitaram o diamante, eu por pouco tempo,
já que em menos de três anos a região foi invadida por levas e mais levas de
garimpeiros.
A ironia maior é que esta ganância
diabólica e traição científica sejam marcadas por esses versinhos que teimam em
não desaparecer de minha frágil memória:
Cazuzinha do Prado mergulhou a mão em concha
Nas águas tranquilas do córrego
E viu no fundo
Onde o céu se refletia claramente
Estrelas brilhando, cintilantes...
Ué! Estrelas de dia?
Não. Eram
diamantes...
Que Deus tenha piedade de mim!”
No fundo, sempre desconfiei destes
“versinhos”. Soavam um tanto “fora de
época”. Mas vamos ao início.
Tudo começou com esta mania de comprar
velhos livros. Folheava, lendo um trecho
aqui, outro ali, a Chorographia do Brasil,
com bela encadernação em couro almofadado, quando descobri uma fresta na parte
inferior da contracapa que já estava bastante desgastada.
Não resisti. Terminei a viagem pelos rios Curimatahú e
Guajú, fechei o livro, corri atrás de uma pinça. Forçando a fresta retirei alguns papéis do
enchimento da capa.
E assim surgiu o documento que acabo
de reler.
O incrível é que os fatos narrados são
verdadeiros, o manuscrito citado está até hoje na Biblioteca Nacional, e o
relatório oficial diz não ter sido encontrada nenhuma cidade perdida. Entretanto, vários exploradores
internacionais estiveram por aqui atrás desta história, como Richard Burton – o
descobridor das nascentes do Nilo – e o coronel Fawcett, antes de desaparecer
nas selvas de Mato Gosso.
Olhando velhas fotografias de viagem,
vou revivendo lugares que visitei na busca para entender um pouco mais esta
interessante história.
Do Sul, as ruínas dos Sete Povos das
Missões. Da Chapada Diamantina, este
cenário tão belo, mas assustador, com as marcas da destruição legada pelo garimpo.
Vilas e cidades, casas coloridas,
janelas ogivais, tudo fala das riquezas e pobrezas do garimpo. Assim nos conta Andaraí, Lençóis, Palmeiras,
Mucugê, Remanso. Serras inteiras
reviradas, montes de cascalhos por toda parte.
Na encosta da Serra do Cruzeiro, o Cemitério Bizantino de Mucugê (1)
guarda em enormes criptas os restos dos que enriqueceram, morreram e destruíram
em nome do brilho e encanto dos diamantes.
Ruinas
em Xique-Xique do Igatu.
Ruinas das Missões, RS.
Vou subindo para Xique-Xique do Igatu
por uma das mais antigas trilhas da Serra do Sincorá. O velho caminho margeia o rio Coisa Boa,
afluente do Paraguaçu, num vale revirado pela garimpagem: entulhos, escavações,
ruínas de pontes, muros, aquedutos, barragens, tudo já coberto pela vegetação
que tenta colorir de verde estes rasgos na natureza. Aqui e ali, pedaços de grossos troncos, já
apodrecidos, atestam o porte das florestas nativas desaparecidas. Nas curvas da subida, belas vistas de
Andaraí, das escarpas na Serra do Sincorá, do Paraguaçu serpenteando, sinuosos
meandros em seu longo caminho até o deságue na Baía de Todos os Santos.
Na chegada, um velho garimpeiro, devagarinho,
ia falando do passado. Até escutávamos
os sons e falas daqueles tempos:
“Cavaram e cavaram, criando um grande
pântano de água doce. O Marimbus. Já pensou, unir as águas de dois rios? O Santo Antônio e o Utinga agora correm
juntos no alagado até desaguarem no Paraguaçu, lá pros lados de Andaraí. Não tem mais do que dois palmos de água. O povo pesca tucunaré, apanhari, cumbá, jundiá,
crumatá, piranha, bagre e traira. É
tanto peixe. Tem até jacaré e
capivara.”
“O último diamante jamais será
encontrado. Os mais velhos da região
ainda abrem as moelas das galinhas caipiras em busca de pedras engolidas, ou
olham bem no chão após as chuvaradas.
Quem sabe não brilhará um diamante?”
“Na garimpagem, quando aparece um
terreno que promete, fazemos um calco (2) pra ver se o jogo da serra
(3) pode ter espalhado diamantes.
Depois tem precisão de saber se a área foi trabalhada ou se é um inteiro
(4). Aí se faz uma catra (5). Se o cascalho for informado (6),
começa toda trabalheira com a construção de barragens, canais, corridas
(7) e frevidores (8), até a apuração (9), quando
colocamos a mão nos diamantes.”
“Até hoje ainda bato lavagem (10)
ou faço faísca (11).”
Seria Xique-Xique do Igatu a cidade
perdida? Só restaram ruínas sobre os
grossos lajedos que não podiam ser perfurados pelos garimpeiros. Lá, paredes de pedra, pavilhões de casinhas
de única porta e janela – bem parecidas com as ruínas encontradas nas missões
jesuíticas...
Mas a história acabou
melancolicamente. O fim chegou com a
notícia de que famoso livreiro-antiquário inglês organizou uma exposição de
manuscritos encontrados dentro de encadernações. O catálogo da exposição apresentava raro
manuscrito sobrevivente do incêndio da biblioteca descrita na obra ficcional O Nome da Rosa. Uma brincadeira em que muitos
acreditaram.
E assim veio a decepção. Como já suspeitava, a marca da fraude foram
aqueles versinhos: faziam parte do poema Descobrimento,
do poeta e memorialista Fernando Sales, publicados em 1949 – um século depois
da façanha de Cazuzinha!
Guardei cuidadosamente o manuscrito e
fiquei apenas sentindo o gosto do godó (12) com cortado de palma
(13), e da sobremesa, sorvete de umbu.
Notas:
1. Assim conhecido pelos detalhes e grandiosidade
das sepulturas.
2. Cálculo, estimativa.
3. Conformação geológica.
4. Área ainda não garimpada.
5. Escavação para inspeção.
6. Possibilidade diamantífera.
7. Canais mais rasos e mais inclinados para
aumentar a velocidade das águas.
8. Poços onde os diamantes ficam depositados com
o turbilhonamento da água
(fervedores)
9. Lavagem final do cascalho com a última
passagem por peneiras.
10. Garimpo em cascalhos
já garimpados.
11. Garimpo de um dia sem
construções de infra-estruturas.
12. Carne cozida com
banana verde – prato dos tropeiros.
13. Cacto Xique-Xique descascado,
cortado em tiras e cozido.
Publicado em "Cidades de Memórias".
