segunda-feira, 22 de junho de 2020

A Oitava Missão



          “Estamos no ano de 1849 na cidade de Salvador, neste país ensolarado chamado Brasil.  Fico a definhar nesta solitária cela.  Pelo menos da pequena janela vejo o azul do mar e ainda acordo com as rezas das matinas na capela do convento.  Acham que estou louco e acabam falando na minha frente coisas que um doente jamais deveria escutar.  Não me preocupo, pois, religioso que sou, sei que o fim está próximo e minha alma entregue ao julgamento de Deus. 
          Foram sete anos, aqueles de 1841 a 1848, no interior da Bahia trabalhando duro, sofrendo de malária – que não poupava nem as mulas – e a sífilis a corroer, a cobrir meu corpo de abscessos, dores, tremuras sem fim.  No início unguentos ou pasta de potassa e antimônio davam algum alívio.  Hoje, nem mercúrio e iodeto de potássio minoram a doença. 
          Eu, Cônego Benigno José de Carvalho e Cunha, vim ao mundo no ano de 1789 na bela terra portuguesa de Trás-os-Montes.  Estudei línguas orientais e matemática na Universidade de Coimbra.  Nas terras brasileiras desembarquei em 1834. 
          O motivo desta carta não é minha vida pessoal.  E sim, a confissão de uma verdade que gostaria de revelar antes de partir deste mundo. 
          Tudo começou quando se achou na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, um manuscrito de 1753.  Tão corroído estava pelas traças que impossibilitava a identificação de seu autor.  A escrita falava de uma cidade perdida no sertão da Bahia próxima dos rios Paraguaçu e Uná.  Descrevia construções fantásticas e obeliscos gigantescos erguidos em granito.  Inscrições em língua desconhecida foram talhadas nas paredes desta cidade.  Nos rios e córregos faiscava o brilho do ouro e muita prata.
          Fui convocado para uma investigação destes fatos por ser o delegado na Bahia do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).  Seguindo as indicações do manuscrito cheguei ao que seria a cidade perdida no alto da Serra do Sincorá.  Concluí tratar-se de uma velha missão jesuítica totalmente desconhecida pela História e Ciências Geográficas.  Com esta confissão registro que, além dos Sete Povos das Missões no sul do Brasil – em ambos os lados de suas fronteiras –, existiu também esta comunidade que devemos chamar de “A Oitava Missão”.  Jamais saberemos o que ocorreu por aqui, o que levou ao abandono desta cidade.  A única voz presente são as ruínas em pedra das velhas oficinas jesuíticas regidas pelo mesmo padrão arquitetônico: pavilhões constituídos de pequenas salas, com apenas uma porta e janela. 
          Infelizmente quis o maligno que descobríssemos diamantes nesta região.  De comum acordo com meus superiores mandei para o IHGB relatórios não conclusivos.  Hoje sofro a pagar os pecados desta fortuna tão ingrata para mim. 
          Foram muitos os castigos.  Uns aproveitaram o diamante, eu por pouco tempo, já que em menos de três anos a região foi invadida por levas e mais levas de garimpeiros. 
          A ironia maior é que esta ganância diabólica e traição científica sejam marcadas por esses versinhos que teimam em não desaparecer de minha frágil memória: 

          Cazuzinha do Prado mergulhou a mão em concha
          Nas águas tranquilas do córrego
          E viu no fundo
          Onde o céu se refletia claramente
          Estrelas brilhando, cintilantes...
          Ué!  Estrelas de dia?
          Não.  Eram diamantes...

          Que Deus tenha piedade de mim!”

          No fundo, sempre desconfiei destes “versinhos”.  Soavam um tanto “fora de época”.  Mas vamos ao início.
          Tudo começou com esta mania de comprar velhos livros.  Folheava, lendo um trecho aqui, outro ali, a Chorographia do Brasil, com bela encadernação em couro almofadado, quando descobri uma fresta na parte inferior da contracapa que já estava bastante desgastada. 
          Não resisti.  Terminei a viagem pelos rios Curimatahú e Guajú, fechei o livro, corri atrás de uma pinça.  Forçando a fresta retirei alguns papéis do enchimento da capa. 
          E assim surgiu o documento que acabo de reler. 
          O incrível é que os fatos narrados são verdadeiros, o manuscrito citado está até hoje na Biblioteca Nacional, e o relatório oficial diz não ter sido encontrada nenhuma cidade perdida.  Entretanto, vários exploradores internacionais estiveram por aqui atrás desta história, como Richard Burton – o descobridor das nascentes do Nilo – e o coronel Fawcett, antes de desaparecer nas selvas de Mato Gosso. 

          Olhando velhas fotografias de viagem, vou revivendo lugares que visitei na busca para entender um pouco mais esta interessante história. 
          Do Sul, as ruínas dos Sete Povos das Missões.  Da Chapada Diamantina, este cenário tão belo, mas assustador, com as marcas da destruição legada pelo garimpo.  Vilas e cidades, casas coloridas, janelas ogivais, tudo fala das riquezas e pobrezas do garimpo.  Assim nos conta Andaraí, Lençóis, Palmeiras, Mucugê, Remanso.  Serras inteiras reviradas, montes de cascalhos por toda parte.  Na encosta da Serra do Cruzeiro, o Cemitério Bizantino de Mucugê (1) guarda em enormes criptas os restos dos que enriqueceram, morreram e destruíram em nome do brilho e encanto dos diamantes. 


Ruinas em Xique-Xique do Igatu.


Ruinas das Missões, RS.


          Vou subindo para Xique-Xique do Igatu por uma das mais antigas trilhas da Serra do Sincorá.  O velho caminho margeia o rio Coisa Boa, afluente do Paraguaçu, num vale revirado pela garimpagem: entulhos, escavações, ruínas de pontes, muros, aquedutos, barragens, tudo já coberto pela vegetação que tenta colorir de verde estes rasgos na natureza.  Aqui e ali, pedaços de grossos troncos, já apodrecidos, atestam o porte das florestas nativas desaparecidas.  Nas curvas da subida, belas vistas de Andaraí, das escarpas na Serra do Sincorá, do Paraguaçu serpenteando, sinuosos meandros em seu longo caminho até o deságue na Baía de Todos os Santos. 
          Na chegada, um velho garimpeiro, devagarinho, ia falando do passado.  Até escutávamos os sons e falas daqueles tempos:

          “Cavaram e cavaram, criando um grande pântano de água doce.  O Marimbus.  Já pensou, unir as águas de dois rios?  O Santo Antônio e o Utinga agora correm juntos no alagado até desaguarem no Paraguaçu, lá pros lados de Andaraí.  Não tem mais do que dois palmos de água.  O povo pesca tucunaré, apanhari, cumbá, jundiá, crumatá, piranha, bagre e traira.  É tanto peixe.  Tem até jacaré e capivara.” 
          “O último diamante jamais será encontrado.  Os mais velhos da região ainda abrem as moelas das galinhas caipiras em busca de pedras engolidas, ou olham bem no chão após as chuvaradas.  Quem sabe não brilhará um diamante?”
          “Na garimpagem, quando aparece um terreno que promete, fazemos um calco (2) pra ver se o jogo da serra (3) pode ter espalhado diamantes.  Depois tem precisão de saber se a área foi trabalhada ou se é um inteiro (4).  Aí se faz uma catra (5).  Se o cascalho for informado (6), começa toda trabalheira com a construção de barragens, canais, corridas (7) e frevidores (8), até a apuração (9), quando colocamos a mão nos diamantes.”
          “Até hoje ainda bato lavagem (10) ou faço faísca (11).”

          Seria Xique-Xique do Igatu a cidade perdida?  Só restaram ruínas sobre os grossos lajedos que não podiam ser perfurados pelos garimpeiros.  Lá, paredes de pedra, pavilhões de casinhas de única porta e janela – bem parecidas com as ruínas encontradas nas missões jesuíticas... 

          Mas a história acabou melancolicamente.  O fim chegou com a notícia de que famoso livreiro-antiquário inglês organizou uma exposição de manuscritos encontrados dentro de encadernações.  O catálogo da exposição apresentava raro manuscrito sobrevivente do incêndio da biblioteca descrita na obra ficcional O Nome da Rosa.  Uma brincadeira em que muitos acreditaram. 
          E assim veio a decepção.  Como já suspeitava, a marca da fraude foram aqueles versinhos: faziam parte do poema Descobrimento, do poeta e memorialista Fernando Sales, publicados em 1949 – um século depois da façanha de Cazuzinha!

          Guardei cuidadosamente o manuscrito e fiquei apenas sentindo o gosto do godó (12) com cortado de palma (13), e da sobremesa, sorvete de umbu.

Notas:
1.  Assim conhecido pelos detalhes e grandiosidade das sepulturas.
2.  Cálculo, estimativa.
3.  Conformação geológica.
4.  Área ainda não garimpada.
5.  Escavação para inspeção.
6.  Possibilidade diamantífera.
7.  Canais mais rasos e mais inclinados para aumentar a velocidade das águas.
8.  Poços onde os diamantes ficam depositados com o turbilhonamento da água
     (fervedores)
9.  Lavagem final do cascalho com a última passagem por peneiras.
10. Garimpo em cascalhos já garimpados.
11. Garimpo de um dia sem construções de infra-estruturas.
12. Carne cozida com banana verde – prato dos tropeiros.
13. Cacto Xique-Xique descascado, cortado em tiras e cozido.






sexta-feira, 19 de junho de 2020

O Tempo Presente e o Tempo Passado


“O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presos no futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irremissível.
O que poderia ter sido é uma abstração
Que se mantém apenas como perpétua possibilidade
Num mundo de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um fim, que é tempo presente.
Ecos de passos na memória
Ao longo do corredor que não percorremos
Em direção à porta que jamais abrimos...”

Do poema Burnt Norton
T. S. Eliot

Compilado de O Prazer do Poema – Uma Antologia Pessoal
Ferreira Gullar
Foto T.Abritta, 2011.