quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Insônia

 

“Insomnia I”. Remedios Varo, 1947

 

 

Não durmo, nem espero dormir.

Nem na morte espero dormir.

 

Espera-me uma insônia da largura dos astros,

E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

 

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,

Não posso escrever quando acordo de noite,

Não posso pensar quando acordo de noite

Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

 

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

 

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,

E o meu sentimento é um pensamento vazio.

Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam

Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;

Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam

Todas aquelas de que me arrependo e me culpo

Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,

E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

 

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.

Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.

Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.

Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,

Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

 

Estou escrevendo versos realmente simpáticos

Versos a dizer que não tenho nada que dizer,

Versos a teimar em dizer isso,

Versos, versos, versos, versos, versos...

Tantos versos...

E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

 

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.

Sou uma sensação sem pessoa correspondente,

Uma abstração de autoconsciência sem de quê,

Salvo o necessário para sentir consciência,

Salvo sei lá salvo o quê...

 

Não durmo. Não durmo. Não durmo.

Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!

Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

 

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...

Vem, inutilmente,

Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...

Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,

Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,

Segundo a velha literatura das sensações.

 

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.

O meu cansaço entra pelo colchão dentro.

Doem-me as costas de não estar deitado de lado.

Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.

Vem, madrugada, chega!

 

Que horas são? Não sei.

Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,

Não tenho energia para nada, para mais nada...

Só para estes versos, escritos no dia seguinte.

Sim, escritos no dia seguinte.

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

 

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.

Paz em toda a Natureza.

A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.

Exatamente.

A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.

Costuma dizer-se isto.

A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,

Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.

Exatamente. Mas não durmo.

 

Insônia, Fernando Pessoa


Sombra

 ...pressupõe silêncio

 

presença de um corpo

que não vemos

 

na sua evanescência,

sem palavras nem uais

 

seu sorriso

seu pecado

sua dor

                                          Sombra ©



 

sábado, 16 de janeiro de 2021

"Deserto" Globalizado

 Um poema da saudosa amiga Vera Tavares, onde chora as dores do mundo:

(Publicado na antologia Poética Especial - Oficina Literária Ivan Proença, novembro de 2009)



Mulher Amarela

 

                                                                  ©

amanheceu

vestida

de brisa

 

suspirou

protestou.

 

no estranhamento,

amarela ficou

 

seu olhar é Pop

seu sorriso Arte

Pop Arte


quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Lume Azul

pesadas portas cerradas

ferrolhos emperrados

 

pelas frestas, reflexos de luz

bordada em ouro

 

por baixo, lume azul

derramado pelo chão

 

azul secreto do céu

da vida noite tempo

 

ferrolho que suspira

porta que geme

 

corpo que se despe

passos no meu sonho

simplesmente azul

                                 ©