segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Um encontro com Mme. Coudreau


          Infelizmente cartas caíram em desuso.  Por um lado, temos a rapidez nas comunicações, mas perdemos a sensação de abrir o envelope e ler escritas de amor, dor, literatura...

          As últimas cartas que recebi foram da escritora Olga Savary, onde ela comenta o meu livro “Cidades de Memórias” e nosso encontro com a desconhecida Mme. Coudreau na crônica “Delírios Tropicais”.  Pela coincidência deste encontro em plena Amazônia, reproduzo abaixo um trecho desta crônica e fac símiles da carta recebida.

 

          “Em 1899, o naturalista Henri Coudreau acompanhado de sua esposa, também naturalista, Mme. Coudreau, após percorrer durante meses rios paraenses, encontra a morte às margens do Rio Trombetas.  Mostrando uma grande coragem, mesmo desolada com a perda do marido, Mme. Coudreau continua a excursão pelo Rio Cuminá, onde, em um tenso encontro com os índios da região, teve que tirar parte de suas roupas e mostrar os seios em troca de sua vida.  O mais incrível nesta história toda é que, anos depois, em 1925, uma excursão liderada pelo geólogo Avelino de Oliveira e Picanço Diniz, ao encontrar um grupo de índios Pianocotó, na mesma região, fizeram contato verbal usando como intérprete uma índia “domesticada” falando o dialeto caxinauá.  Os índios, ao verem uma mulher aparentemente branca, que vestia roupas, fugiram apavorados, exceto um jovem nativo que ordenou, na língua comum, que ela mostrasse os seios e, a vista destes, abaixou o arco abandonando a atitude hostil.  Aqui cabem algumas considerações: será que a atitude desse índio é baseada em conhecimento do mesmo fato anterior através uma tradição oral?  Ou cabe aqui a teoria do inconsciente coletivo de Jung?  Ou será que esta prática voyeurística de alguma maneira está relacionada com o trabalho de catequese do Padre Nicolino, que percorreu esta região por mais de vinte anos em três sucessivas expedições no final do século XIX?  Afinal de contas o princípio básico de qualquer catequese religiosa é a destruição da religião, da moral e dos costumes do povo a ser dominado...”





 

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Pegadas na Floresta

 


Espatódia.  Posse, Petrópolis. Foto T.Abritta, 2014.

 

vejo a floresta de seus sonhos

floridas árvores acariciando o azul do céu

escuto estalidos a cada passo

 

me encanto com o sinuoso sensual caminhar

suave graça no andar

 

vestida apenas com longa negra trança

derramada pelas costas

 

sorriso de sedução

neste verde que acolhe

 

inesquecíveis momentos

na cumplicidade vegetal

 

o silêncio vai imperando

com os estalidos ao longe se afastando

 


quinta-feira, 23 de julho de 2020

Chamem os Mineiros



          Nunca a perfeita interpretação da alma mineira foi atingida como nas histórias e piadas de Fernando Sabino:

          Mineiro é cauteloso, desconfiado, não gosta de revelar nem a identidade – falava o escritor:
– Qual é o seu nome todo? – pergunta o carioca.
– Diz a parte que você sabe – desconversa o mineiro.

          Diante de estranhos sua conversa é econômica:
– Ah, você também é de Minas?
– Sou, sim sinhô.
– De onde?
– De Minas mesmo.

          Em geral, tenta ser conciliatório, mesmo quando incitado a externar opiniões políticas:
– Que tal o prefeito daqui?
– O prefeito?  É tal qual eles falam dele.
– E o que é que eles falam dele?
– Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo que é prefeito.

          Mas o melhor da cultura mineira são os seus hábitos de economia, que muitos classificam como “pão-durismo”.  Na realidade, mostram uma preservação de recursos.  Em Minas já se cultuavam estas idéiastanto tempo, que podemos dizer que, enquanto os ecologistas de hoje vinham com o milho, a mineirada ia com o fubá. 
          em casa, durante minha infância e juventude, poupava-se, economizava-se, reciclava-se tudo.  Pecado mortal deixar comida no prato – muitas pessoas no mundo passavam fome.  Caixotes eram desmontados, pregos desamassados e guardados.  Com os barbantes usados faziam-se rolos, qualquer papel virava rascunho para escrever e desenhar, jornais e garrafas iam para o garrafeiro.  Praticamente nada jogado no lixo: qualquer objeto não mais necessário doava-se para alguém que necessitasse, ou desmontado para aproveitar peças, parafusos, porcas e arruelas, guardados em potes de vidros de azeitona ou geleia, devidamente etiquetados. 
          Dos familiares paternos, havia história de parente que partia os palitos de fósforos em dois.  Do lado materno, um vizinho da minha avó, em Belo Horizonte, retirou as lâmpadas de sua sala quando instalaram um poste de iluminação na rua, bem em frente a sua janela.  Outra vizinha, Dona Emília, exagerava um pouco na economia, transformando os gatos da região em guisados, filés acebolados e outros quitutes.
          Na casa em frente, Seu Trindade, figura importante do bairro, proprietário do único telefone da rua e guarda civil aposentado, era econômico a seu modo.  Nunca saía, vestia ano inteiro o mesmo pijama encardido.  Da janela não deixava de cumprimentar cada morador:

– Já vai sair, né Dona Lourdes?
– Já voltou, né Dona Lourdes?

          Quando passávamos férias na casa de nossa avó, não podíamos dormir com luzes acesas.  Na manhã seguinte, uma romaria para perguntar quem ficou doente durante a noite.  , desconheciam-se medicamentos industrializados.  Toda farmácia vinha das ervas do quintal.  Na frente da casa não existia muro e sim uma espécie de cerca viva, que tomava também boa parte da calçada de terra.  Diariamente, pouco antes do almoço, aquele perguntar constante: Dona Lourdes, posso pegar ora-pro-nobis?  Mostrando que aquele matagal era na verdade uma verdura, que complementava a alimentação de todos, inclusive da vizinhança – uma das heranças da cultura escrava, que descobriu seu valor nutritivo.  E assim o pessoal ia vivendo...


Ora-Pro-Nobis florido.  Foto 2009 ©

          Hoje em dia, por mais que lutemos por políticas públicas de preservação ambiental, uma ação individual é necessária no sentido de poupar recursos naturais e diminuir o lixo que produzimos e que contamina o meio ambientePara isto, pequenas ações como levar suas próprias sacolas para o mercado, evitando os sacos plásticos, separar o lixo doméstico para reciclagem, apagar lâmpadas desnecessárias, imprimir nos dois lados de uma folha de papel, e tantas outras que vão se somando e acabam produzindo resultados significativos
          Portanto, deixando o folclore de lado, uma economia “tipo mineira” não deve ser desprezada. 

Crônica publicado em abril de 2009 no Montbläat e posteriormente no livro Memórias, História e Imaginação.  A maravilhosa foto que ilustra esta postagem, me foi enviada na época por uma leitora de Minas Gerais.  



segunda-feira, 13 de julho de 2020

Albery



Eu já havia até esquecido deste desenho de Albery, pois como foi feito com lápis pilot em uma folha de papel de uma velha impressora matricial - o papel era em rolo, com picotados para destacar as folhas - , depois de enquadrado dependurei em um canto escuro da casa, de modo a aumentar sua durabilidade. Mas o interessante é que foi feito em uns cinco minutos na fila de espera de um banco, em troca de passar a nossa frente no atendimento.
Se observarmos a obra deste artista, veremos que o desenho tem um viés Surrealista, sendo um dos seus trabalhos mais interessantes.
Albery (1944-2003) morou em Nova York e Paris, tendo retratado Carolina, a princesa de Mônaco e neste desenho, Cristina, minha mulher, como compensação às críticas que recebeu por não respeitar filas.
Notem, dentro da profusão de elementos, a piteira que a Cristina usava para fumar.



sexta-feira, 10 de julho de 2020

No refluxo da maré



já me chamaram
...de amigo fiel
...de amigo, “muito bom amigo”
...de querido amigo
...amigo sem igual - especial

hoje, neste universo digital
sou apenas um igual


Foto T.Abritta. Jericoacoara, CE.



segunda-feira, 22 de junho de 2020

A Oitava Missão



          “Estamos no ano de 1849 na cidade de Salvador, neste país ensolarado chamado Brasil.  Fico a definhar nesta solitária cela.  Pelo menos da pequena janela vejo o azul do mar e ainda acordo com as rezas das matinas na capela do convento.  Acham que estou louco e acabam falando na minha frente coisas que um doente jamais deveria escutar.  Não me preocupo, pois, religioso que sou, sei que o fim está próximo e minha alma entregue ao julgamento de Deus. 
          Foram sete anos, aqueles de 1841 a 1848, no interior da Bahia trabalhando duro, sofrendo de malária – que não poupava nem as mulas – e a sífilis a corroer, a cobrir meu corpo de abscessos, dores, tremuras sem fim.  No início unguentos ou pasta de potassa e antimônio davam algum alívio.  Hoje, nem mercúrio e iodeto de potássio minoram a doença. 
          Eu, Cônego Benigno José de Carvalho e Cunha, vim ao mundo no ano de 1789 na bela terra portuguesa de Trás-os-Montes.  Estudei línguas orientais e matemática na Universidade de Coimbra.  Nas terras brasileiras desembarquei em 1834. 
          O motivo desta carta não é minha vida pessoal.  E sim, a confissão de uma verdade que gostaria de revelar antes de partir deste mundo. 
          Tudo começou quando se achou na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, um manuscrito de 1753.  Tão corroído estava pelas traças que impossibilitava a identificação de seu autor.  A escrita falava de uma cidade perdida no sertão da Bahia próxima dos rios Paraguaçu e Uná.  Descrevia construções fantásticas e obeliscos gigantescos erguidos em granito.  Inscrições em língua desconhecida foram talhadas nas paredes desta cidade.  Nos rios e córregos faiscava o brilho do ouro e muita prata.
          Fui convocado para uma investigação destes fatos por ser o delegado na Bahia do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).  Seguindo as indicações do manuscrito cheguei ao que seria a cidade perdida no alto da Serra do Sincorá.  Concluí tratar-se de uma velha missão jesuítica totalmente desconhecida pela História e Ciências Geográficas.  Com esta confissão registro que, além dos Sete Povos das Missões no sul do Brasil – em ambos os lados de suas fronteiras –, existiu também esta comunidade que devemos chamar de “A Oitava Missão”.  Jamais saberemos o que ocorreu por aqui, o que levou ao abandono desta cidade.  A única voz presente são as ruínas em pedra das velhas oficinas jesuíticas regidas pelo mesmo padrão arquitetônico: pavilhões constituídos de pequenas salas, com apenas uma porta e janela. 
          Infelizmente quis o maligno que descobríssemos diamantes nesta região.  De comum acordo com meus superiores mandei para o IHGB relatórios não conclusivos.  Hoje sofro a pagar os pecados desta fortuna tão ingrata para mim. 
          Foram muitos os castigos.  Uns aproveitaram o diamante, eu por pouco tempo, já que em menos de três anos a região foi invadida por levas e mais levas de garimpeiros. 
          A ironia maior é que esta ganância diabólica e traição científica sejam marcadas por esses versinhos que teimam em não desaparecer de minha frágil memória: 

          Cazuzinha do Prado mergulhou a mão em concha
          Nas águas tranquilas do córrego
          E viu no fundo
          Onde o céu se refletia claramente
          Estrelas brilhando, cintilantes...
          Ué!  Estrelas de dia?
          Não.  Eram diamantes...

          Que Deus tenha piedade de mim!”

          No fundo, sempre desconfiei destes “versinhos”.  Soavam um tanto “fora de época”.  Mas vamos ao início.
          Tudo começou com esta mania de comprar velhos livros.  Folheava, lendo um trecho aqui, outro ali, a Chorographia do Brasil, com bela encadernação em couro almofadado, quando descobri uma fresta na parte inferior da contracapa que já estava bastante desgastada. 
          Não resisti.  Terminei a viagem pelos rios Curimatahú e Guajú, fechei o livro, corri atrás de uma pinça.  Forçando a fresta retirei alguns papéis do enchimento da capa. 
          E assim surgiu o documento que acabo de reler. 
          O incrível é que os fatos narrados são verdadeiros, o manuscrito citado está até hoje na Biblioteca Nacional, e o relatório oficial diz não ter sido encontrada nenhuma cidade perdida.  Entretanto, vários exploradores internacionais estiveram por aqui atrás desta história, como Richard Burton – o descobridor das nascentes do Nilo – e o coronel Fawcett, antes de desaparecer nas selvas de Mato Gosso. 

          Olhando velhas fotografias de viagem, vou revivendo lugares que visitei na busca para entender um pouco mais esta interessante história. 
          Do Sul, as ruínas dos Sete Povos das Missões.  Da Chapada Diamantina, este cenário tão belo, mas assustador, com as marcas da destruição legada pelo garimpo.  Vilas e cidades, casas coloridas, janelas ogivais, tudo fala das riquezas e pobrezas do garimpo.  Assim nos conta Andaraí, Lençóis, Palmeiras, Mucugê, Remanso.  Serras inteiras reviradas, montes de cascalhos por toda parte.  Na encosta da Serra do Cruzeiro, o Cemitério Bizantino de Mucugê (1) guarda em enormes criptas os restos dos que enriqueceram, morreram e destruíram em nome do brilho e encanto dos diamantes. 


Ruinas em Xique-Xique do Igatu.


Ruinas das Missões, RS.


          Vou subindo para Xique-Xique do Igatu por uma das mais antigas trilhas da Serra do Sincorá.  O velho caminho margeia o rio Coisa Boa, afluente do Paraguaçu, num vale revirado pela garimpagem: entulhos, escavações, ruínas de pontes, muros, aquedutos, barragens, tudo já coberto pela vegetação que tenta colorir de verde estes rasgos na natureza.  Aqui e ali, pedaços de grossos troncos, já apodrecidos, atestam o porte das florestas nativas desaparecidas.  Nas curvas da subida, belas vistas de Andaraí, das escarpas na Serra do Sincorá, do Paraguaçu serpenteando, sinuosos meandros em seu longo caminho até o deságue na Baía de Todos os Santos. 
          Na chegada, um velho garimpeiro, devagarinho, ia falando do passado.  Até escutávamos os sons e falas daqueles tempos:

          “Cavaram e cavaram, criando um grande pântano de água doce.  O Marimbus.  Já pensou, unir as águas de dois rios?  O Santo Antônio e o Utinga agora correm juntos no alagado até desaguarem no Paraguaçu, lá pros lados de Andaraí.  Não tem mais do que dois palmos de água.  O povo pesca tucunaré, apanhari, cumbá, jundiá, crumatá, piranha, bagre e traira.  É tanto peixe.  Tem até jacaré e capivara.” 
          “O último diamante jamais será encontrado.  Os mais velhos da região ainda abrem as moelas das galinhas caipiras em busca de pedras engolidas, ou olham bem no chão após as chuvaradas.  Quem sabe não brilhará um diamante?”
          “Na garimpagem, quando aparece um terreno que promete, fazemos um calco (2) pra ver se o jogo da serra (3) pode ter espalhado diamantes.  Depois tem precisão de saber se a área foi trabalhada ou se é um inteiro (4).  Aí se faz uma catra (5).  Se o cascalho for informado (6), começa toda trabalheira com a construção de barragens, canais, corridas (7) e frevidores (8), até a apuração (9), quando colocamos a mão nos diamantes.”
          “Até hoje ainda bato lavagem (10) ou faço faísca (11).”

          Seria Xique-Xique do Igatu a cidade perdida?  Só restaram ruínas sobre os grossos lajedos que não podiam ser perfurados pelos garimpeiros.  Lá, paredes de pedra, pavilhões de casinhas de única porta e janela – bem parecidas com as ruínas encontradas nas missões jesuíticas... 

          Mas a história acabou melancolicamente.  O fim chegou com a notícia de que famoso livreiro-antiquário inglês organizou uma exposição de manuscritos encontrados dentro de encadernações.  O catálogo da exposição apresentava raro manuscrito sobrevivente do incêndio da biblioteca descrita na obra ficcional O Nome da Rosa.  Uma brincadeira em que muitos acreditaram. 
          E assim veio a decepção.  Como já suspeitava, a marca da fraude foram aqueles versinhos: faziam parte do poema Descobrimento, do poeta e memorialista Fernando Sales, publicados em 1949 – um século depois da façanha de Cazuzinha!

          Guardei cuidadosamente o manuscrito e fiquei apenas sentindo o gosto do godó (12) com cortado de palma (13), e da sobremesa, sorvete de umbu.

Notas:
1.  Assim conhecido pelos detalhes e grandiosidade das sepulturas.
2.  Cálculo, estimativa.
3.  Conformação geológica.
4.  Área ainda não garimpada.
5.  Escavação para inspeção.
6.  Possibilidade diamantífera.
7.  Canais mais rasos e mais inclinados para aumentar a velocidade das águas.
8.  Poços onde os diamantes ficam depositados com o turbilhonamento da água
     (fervedores)
9.  Lavagem final do cascalho com a última passagem por peneiras.
10. Garimpo em cascalhos já garimpados.
11. Garimpo de um dia sem construções de infra-estruturas.
12. Carne cozida com banana verde – prato dos tropeiros.
13. Cacto Xique-Xique descascado, cortado em tiras e cozido.






sexta-feira, 19 de junho de 2020

O Tempo Presente e o Tempo Passado


“O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presos no futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irremissível.
O que poderia ter sido é uma abstração
Que se mantém apenas como perpétua possibilidade
Num mundo de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um fim, que é tempo presente.
Ecos de passos na memória
Ao longo do corredor que não percorremos
Em direção à porta que jamais abrimos...”

Do poema Burnt Norton
T. S. Eliot

Compilado de O Prazer do Poema – Uma Antologia Pessoal
Ferreira Gullar
Foto T.Abritta, 2011.



domingo, 31 de maio de 2020

Vinho Tinto



perfume de crisântemos
ou aroma da ardorosa flor
(que se abria)

talvez o que poderia ser, mas não foi
(o futuro do desejo)

nem marcas de batom
na taça vazia
(apenas um nada)

lábios vermelhos
vinho tinto


sua imagem não transparecia
pegadas não deixaria
(nada existia)

lábios vermelhos
vinho tinto

Ah, labia majora, labia minora
capitosas ardorosas pétalas

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Varanda das Infinitudes


Varanda das Infinitudes

          Momentos mágicos: nos finais de tarde sentava-me debruçado sobre o rio, redigindo anotações na Caderneta de Campo.  No estrondoso rolar das águas, o silêncio.  Movimento provocava quietude.  O ciclo da natureza.  Eternidade.  Pela manhã, ruidoso despertar com cantos de pássaros.  Depois, o gado pastando – no entardecer recolhiam-se tal pontos brancos, sumindo, sumindo na paisagem.  Pequenas aves ciscavam insetos no capim pisoteado na tarde que caía.  O anoitecer.  Explosões luminosas – miríades.  Gigantescos vagalumes brilhavam nas montanhas, rios e pedras, descortinando etéreo cenário.
          Varanda encantada.  Aqui meu escritório, poucos quilômetros serra acima de Casimiro de Abreu.  Além, Macaé, Campos.  Grandes transformações econômicas, paradoxalmente grandes riscos para vida e a cultura. 
          Pensava no jantar em São Pedro da Serra: olhos azul profundo, idade indefinida.  Pele branca.  Rugas marcadas, mostrando o castigo pelo sol tropical.  Lugar inusitado.  Poderíamos dizer pobre, mas sofisticado.  Fina louça e talheres recolhidos aqui e ali.  Cadeiras descasadas carregavam certa nobreza.  Toalha branca, guardanapos tão impecáveis que nem se notavam os puídos nas pontas, vela acesa na mesa sobre o chão de cimento.  Voz suave ia explicando a fondue, falando sua vida:

          Vivo entre amigos de origem suíça.  Na verdade puro acaso.  Viajei mundo afora procurando antigo amor brasileiro.  Coisas da juventude.  Agora vivo feliz neste lugar.  Preparamos vinho tinto, caldo de carne e especiarias – segredos de cozinheira.  Os pequenos escalopes de filé são cozidos neste molho.  Quando tudo parece terminar, a surpresa: fazemos a cocção de um ovo no resto do caldo, para finalmente mexermos ligeiramente, formando grumos.  Vira uma bela sopa.  O deguste final (1).

          O azul profundo se despedindo no cerrar das pálpebras que pareciam respirar, meditar em meio ao invisível.
          Pela manhã desci a serra, pensando nos imigrantes suíços que aqui chegaram pela primeira vez, encantados, dizendo: este será o nosso Rio Sena.  Agora com o tempo Sana (2).  Pensei nos cafezais, as tropas de mulas levando a colheita, subindo e descendo montanhas para o distante ramal ferroviário.  Grandes balsas subindo até Cachoeira do Macaé, embarcando sacas de café.  Águas passadas.
          A noite querendo chegar, Vênus brilhante caindo para Oeste, já quase desaparecendo no horizonte montanhoso.  A leste, Lua cheia surgindo, arrastando Júpiter luminoso como nunca.  Corri, peguei a luneta e, emocionado – lá estava o misterioso Urano, tão perto que parecia uma lua deste planeta gigante.  A dança celeste espelhava poesia (3):

                    Nas horas mortas da noite
                    Como é doce o meditar
                    Quando as estrelas cintilam...
                    Quando a Lua majestosa
                    Surgindo linda e formosa... (4)

          Fiquei pensando na vida.  No muito que trabalhei, nas belezas que via daquela varanda.  Magnífico escritório. 
          Inicialmente trabalhava apenas com cálculos de modelos matemáticos, onde, em função do tamanho das manchas verdes identificadas nesta região e de vários outros parâmetros, calculava a chance de uma espécie animal sobreviver, ocupando extensas áreas.  Depois passei também a fazer trabalhos de campo, medindo cursos de rio, estradas e demais fatores que poderiam facilitar ou dificultar a sobrevivência de animais ou vegetais.  Estudos importantes na definição de reservas naturais em equilíbrio com atividades agrícolas, de pecuária e turismo. 

          Notícia assustadora.  Uma das maiores áreas de preservação ambiental do Estado do Rio de Janeiro, a Reserva Particular do Patrimônio Natural dos Aymorés, foi invadida em nome do populismo eleitoreiro promovido pelo governo federal a quem caberia zelar pelas Leis (5).  Dezenas e dezenas de espécies animais e vegetais ameaçadas: árvores cobertas de fungos vermelho-róseos, sinal da pureza do ar, virando lenha.  O Gavião-pato, espécie em extinção e indicadora da qualidade ambiental de uma área, predado impiedosamente.  O Muriqui perdendo este corredor ecológico, não conseguindo mais transitar entre fragmentos florestais.  Para não falar no Mico-leão-dourado, restrito cada vez mais à Reserva de Poço das Antas.  Foi uma volta triste.  Apeei do cavalo, atravessei a Ponte de Arame (6) (V. Figura 15).  Parado, observava o Rio Macaé, navegável no passado até aquele ponto.  Na minha cabeça a desconstrução da poesia e da natureza.

                    Minha terra não tem palmeiras...
                    E em vez de um mero sabiá,
                    Cantam aves invisíveis
                    Nas palmeiras que não há (7).

          Esta noite nem a placidez da varanda aquietava-me.  No sono agitado vi um grupo de cinco alpinistas comemorando a escalada, pela primeira vez, do Pico do Peito de Pomba.  Um parou na minha frente falando (8):

          O Sana está vivendo uma nova época.  Chegou a luz.  Acho importante o Movimento de Defesa do Meio Ambiente no Sana.  Dou todo meu apoio e creio que todos devem apoiar; é preciso preservar a natureza, proteger o que resta em riachos e matas para nossos filhos e netos.  É preciso reflorestar, não poluir, construir fossas, deixar viver os animais.  Enfim, é preciso cuidar do Sana para nossas crianças.

          Sumiu no nada se despedindo poeticamente:

                    O filósofo passou a vida estudando,
                    O cantor passou a vida cantando.
                    Porém, o mais lindo desta vida,
                    São dois seres que passam
[a vida se amando.

          Agora, caminhando por noturnas praias infinitas, encontrei dois rapazes deitados na areia, conversando e observando o céu estrelado:

          Keats, a vida é fluida como névoa.  Fugidia como águas de um rio.  O mar, céu, nossos passos por este mundo, são tal viagens infinitas.  A natureza é permanente, nós nos vamos, ficam só pegadas.  Acabamos?  Alguns até nos vêm e escutam.  Nossas palavras ficaram.  A paixão, a beleza da poesia, vence a razão petrificada no tempo da Ciência – o tempo dos relógios.  É como o mar insondável.  As ondas são os anos.  Oceanos do tempo que recebe o sal do pranto dos humanos (9). 

          Shelley, sinto-me solitário tal a Estrela Polar.  Fosse eu imóvel como este astro fulgente, ficaria suspenso como uma luz deserta, a contemplar com a pálpebra imortal aberta, rodeando a Terra, o humano litoral?  Não! Mas firme e imutável, sempre a descansar no seio de meu belo amor, para sentir, e sempre, o seu arfar... E assim vivi, como o que espreita o céu e colhe na visão.  Algum novo planeta, assim fiquei então... (10).

          Estranha conversa.  Palavras ao vento?  Continuei pelas areias.  À frente já avistava a silhueta do promontório rochoso encimado pelo branco barroco da Igreja de São João Batista.  Do outro lado brilhava o Rio São João de encontro ao mar. 
          Na escuridão cruzei com um senhor, sotaque lusitano, que falou:

          Sou Latino.  Anote aí.  Estive com Casimiro em Portugal.  Ele um garoto, eu lá pelos meus trinta anos.  Publiquei duas décadas depois A Ciência na Idade Média.  Lá, encontrarás a chave para as quatro estrelas, não vistas mais que da primeva gente.  As estrelas de Dante, o Cruzeiro do Sul de Casimiro.  A bússola dos viajantes austrais.

          Do alto das pedras avistava dois jovens quase meninos, rindo e escrevendo versos alternadamente nas areias lambidas pelo salgado do mar e o doce do rio (11): 

          Logo, quando os corredores ficarem vazios,
          E todo o Sanatório adormecer,

                    Eu sinto que esta vida já me foge
                    Qual d’harpa o som final,

          a febre dos tísicos entrará no meu quarto
          trazida de manso pela mão da noite.

                    E não tenho, como o naufrágio nas ondas
                    Nas trevas um fanal!

          Os meus olhos brilharão como os da fera
          Que defende a entrada de seu fojo.

                    É um suplício atroz!
                    E pra contá-la falta à lira cordas
                    E aos lábios meus a voz!
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          Mas de repente, um clamor estranho acabou de se ouvir.  Parecia o despertar deste profundo sono.  Será a Ária dos Meninos Mortos?  Não há árvores, não há brisas, tudo está quieto para se ouvir a Ária dos Meninos Mortos (12).
          Acordei em paz.  Corri para examinar a Caderneta de Campo.  Lá, registrado: Latino Coelho (1825-1891).  Ver “A Ciência na Idade Média”.
          Eternidade das estrelas, da Ciência, eternidade da Poesia.  Nossas matas e animais sobreviverão. 
A vida sempre presente.


Notas:
1. Fondue Vigneronne
2. Nome do rio e do Distrito de Macaé, RJ, no sopé da Serra de Friburgo.
3. No mês de setembro de 2010 foi observada a máxima aproximação de Júpiter da Terra, nos quase últimos cinqüenta anos, coincidindo também com uma máxima aproximação de Urano.  Ambos podendo ser observados muito próximos.
4. Versos da poesia Saudades de Casimiro de Abreu.
5. Na madrugada de sete de setembro de 2010, a Fazenda Bom Jardim – entre os distritos de Córrego do Ouro e Conceição de Macabu, no município de Macaé, RJ, foi invadida e depredada.  O Governo Federal havia desapropriado esta área para fins de reforma agrária – conforme publicação no Diário Oficial da União de dois de setembro –, desconhecendo ser uma RPPN com mais de um milhão e meio de hectares.  Passada as eleições, esta fazenda foi desocupada em dezessete de novembro deste mesmo ano por força de uma liminar de reintegração de posse concedida pela Justiça Federal. 
6. Ponte pênsil de cabos de aço conhecida como Ponte de Arame
7. Uma Canção de Mário Quintana.
8. Declarações e poesia de Norival da Costa Dames, publicadas no Jornal de Sana, Órgão Informativo do Clube dos Amigos da Natureza, Sana, julho de 1986.  Diretor Responsável: Antenor L. Souza (Presidente).  Norival, também conhecido como Nori, em companhia de outros quatro alpinistas, escalou pela primeira vez o Pico do Peito de Pomba nesta região em 13 de maio de 1950. 
9. Fragmentos intertextuais de poesias de P.B.Shelley (1792-1822).
10. Fragmentos intertextuais de poesias de Keats (1795-1821).  “Algum novo planeta” é uma homenagem à descoberta de Urano: o poeta tomou conhecimento ao ganhar o livro Introduction to Astronomy, de John Bonnycastle, como prêmio escolar em 1811.
11. Referências a Casimiro de Abreu (1839-1860) e Ascânio Lopes (1908-1929).  Abaixo, fragmentos intertextuais de versos das poesias Horas Tristes e O Sanatório.
12. Fragmentos intertextuais da poesia Ária dos Meninos Mortos de Jorge de Lima.

Casimiro de Abreu, Barra do São João. Foto T.Abritta, 2010.


Publicado em “Os Meus Papéis”.