terça-feira, 27 de junho de 2017

Prezada Leitora

Agradeço seus comentários e atenção pelo meu livro, lendo e relendo linhas e entrelinhas, em particular o conto Galinha Matada.
Escrever sobre temas mais psicológicos, ou seja, o Eu interior, penetrando fundo na alma feminina, é um tanto complexo.
Diante das suas indagações sobre os limites do fazer literário e a realidade, escrevi um pequeno ensaio, esperando que não tenha revelado totalmente meus “segredos”.  Fica como um compartilhamento das minhas técnicas de escrita, diante do seu grande interesse pela Literatura e assuntos correlatos.
          Não sei se responderei a suas indagações.  Mas a ideia é esta mesma: levar os leitores a uma reflexão engrandecedora e não apenas lúdica.
          Agradeço também pela imagem que enviou, onde a reprodução desta pintura de Marc Chagall, perturbadoramente bela, aponta um novo enfoque para o texto.  Ilustro o ensaio com tal imagem, deixando como legenda parte de seus comentários.

Sobre “Os Meus Papéis”

          Quando escrevemos esperamos que os leitores se identifiquem com os textos.  Mas nem sempre isto acontece.  Fica faltando um quê de realidade.
          A sua grande identificação com o conto Galinha Matada muito me alegra.  Escrever sobre reflexões filosóficas e o íntimo da alma feminina é difícil, ainda mais num tom poético e sensual, sempre com extrema delicadeza.  Portanto esta sintonia é positiva.  O texto trata de preocupações e sentimentos profundos, mas sempre levando ao caminho da esperança.
Não é o que todos almejam?
          Uma coisa é descrever sentimentos.  Outra é penetrar nos pensamentos, lendo-os como um livro aberto – a mente masculina invadindo o universo feminino, rompendo suas rendas e experiências particulares.  Como isto é impossível, usei uma técnica de “emoldurar” o texto com citações diversas, cenários maravilhosos, poesias intrigantes e provocativas (ver, por exemplo, na página vinte e oito).  Usei também uma grande carga de símbolos, como a cobra, a égua e imagens de forte apelo emocional e sensual.  Ou seja, fui criando um ambiente para a pessoa sentir-se acolhida e perder-se nas idas e vindas entre o real e imaginário, acabando por entrar na personagem e fazendo parte da história, como você mesmo comentou: parecia que me desnudava física e emocionalmente...
          Para escrever este texto tive que reler Bergson, rever filmes, como Morangos Silvestres – que trata da velhice e o passar do tempo – e juntar uma infinidade de textos, citações, poemas e até pesquisar na Bíblia para encontrar a citação usada.  Note que o poema Sírinx, de Teócrito (claro, o grego), foi tirado de uma tradução que saiu no jornal em 1993.  Outra obra muito consultada foi O Homem e seus Símbolos de Carl G. Jung, que muito contribuiu na construção dos cenários e nas imagens provocativas ou enigmáticas.
          Assim foi montada a armadilha para uma leitora fiel como você perguntar:

         Ali estou ou sou eu?!


Ler “Galinha matada” é proposta para variadas leituras.  Se tivesse de sugerir uma imagem, seria esta de Chagall: a personagem esplendorosamente triunfante e o narrador tentado entrar na história, cavalgando neste cenário de sedução.


Nenhum comentário:

Postar um comentário