terça-feira, 27 de junho de 2017

Galinha Matada


Ao passo, subia, descia, cortava trilhazinhas a caminho da Fazendola.  Paisagem magnífica, vistas infinitas, solidão absoluta.  A Natureza que nos protege e renova.  Viagem de reconstrução pessoal.  Volta a um ponto no passado rompido. 
          Pensar o significado do tempo era atrativo. Um dos meus temas preferidos em Filosofia.  As ideias de um tempo circular, do eterno retorno; o tempo de Bergson ligado ao seu conceito de memória, estabelecendo uma comunhão entre passado e presente.  O implacável tempo da Ciência, a finitude dos sistemas biológicos.  A escala de eternidade da natureza física, sempre lembrada pelo olhar fossilizado daquele trilobito – lembrança de uma existência com milhões de anos, olhando e dizendo do fundo das minhas estantes, sufocado por livros empoeirados: “você, da geração de meia dois, ocupa um ponto invisível, que representa seu intervalo de tempo nas eras geológicas.”
Tento olhar para frente.  Pensar o futuro é a utopia que sempre buscamos. No fundo, só existe passado e futuro. O passado com seus desejos realizados ou não, fica na memória ou, para outros, marcas reais de alegrias ou tristezas.  Aproveitar o fugaz presente sem medir consequências seria pensar a vida como efêmera, curta e, portanto, sempre bela. Seria isto possível?  Talvez o futuro seja mais promissor, o futuro do desejo, do que pretendemos realizar.  Mesmo não existindo concretamente, sempre pode ser idealizado. 

          O som – chocalho da cascavel enrolada para o bote.  Reação rápida: sem tempo para vírgulas a égua empinou, levantando as patas dianteiras numa quase morte; num sopro de terror pânico daquele horror saiu desembestada colina abaixo.  Inclinada para a frente, o vento veloz varrendo o rosto, correndo mais do que a chama de uma vela, mais do que a luz e o pensamento.  Por fim, montaria controlada: Cavalo ruano corre todo ano.  Cavalo mineiro dizem que é matreiro.  Ainda bem. 
          Estava perdida, longe da trilha.  Procurei pelo mapa.  Virando a bolsa de cabeça pra baixo nada encontrei.  Bem, bússola não tenho, seria do jeitinho mineiro.  Perguntarei em cada esquina e eles me dirão: é logo ali, dona.  Mas por aqui ninguém estará proseando.  Nem velhos, nem moços, crianças ou mesmo galinhas.  O jeito será perguntar para pedras, árvores e até porteiras – brincadeiras da imaginação.  Perdida, empoeirada, enlameada, suarenta, despenteada.  Desandei a chorar (V. Figura 1). 


Figura 1 – Perdida e Enlameada.  Foto T.Abritta.  Araras, Petrópolis – 2010.

          Do nada, uma voz delirante cantou: “de tua pele de maçã madura, por mim roçastes a cabeleira escura com uma tão rara e singular doçura das espáduas nuas.”

          Apeei, enxuguei as lágrimas no rosto amarelado pela terra.  Levei a égua para beber água no laguinho deste vale desconhecido.  Tirei o chapéu jogado nas costas, a blusinha de seda toda maltratada, terminando pela calça de montaria e botas.  Caminhei de um lado para outro, entrei na água, massageei os seios doloridos pelo maltrato da cavalgada – onde já se viu uma Amazonas esquecer o sutiã?  Sentei na beirada de terra coberta com um capinzinho ralo.  Pés esticados dentro da água, apenas observava minhas unhas vermelhas em movimento, patinhando pra lá pra cá. 
          Felizmente a vida tem me dado surpresas.  Então acho que está indo bem.  Diz minha natureza que em situações difíceis – estava perdida neste vale, quem sabe encantado –, o melhor é ouvir música e dançar, ou simplesmente deitar e pacientemente observar.  Existe movimento ainda que tudo pareça estático. 

          Cobra-Nudez-Natureza.
          Sexo-Prazer-Liberdade.

          Natureza, as Églogas, os Poemas Pastoris de Teócrito.  O grego de Siracusa, claro: ... com doçura e alma alegre possas tocar a de lindo rosto, a jovem muda, a invisível (*).  Seriam as mulheres e seus sentimentos, como Eco, que por não ter voz própria, era muda, e invisível, por ser apenas voz? 

          A sombra de meus seios oscilava nas águas como a silhueta de pequeninos barcos sobre um espelho: meu rosto, o tripulante.  Longa viagem entre futuro e passado.  Entre a quietude e o perturbador desejo.  Entre meu querer e não-querer.

          Teve a coragem de me dar um livro de Neruda com aqueles versos sublinhados:

          Amo el amor de los marineros
          que besan y se van.
                 
          Dejan una promesa.
          No vuelven nunca más.

          Poderia ter respondido:

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: “La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos.”

          Babaca.  Euzinha aqui, vilipendiada, abandonada, desprezada, sufocada. 
          Bem que ele gostaria de ter sido chamado de canalha, mas agradeci ao “perfeito cavalheiro”, suprema ofensa masculina: o idiota que perde as oportunidades para outros.

          Cartas marcadas-favas contadas-águas passadas.

          Joguei os cabelos para trás, olhar atrevido tal égua empacando, pensei: afinal, sou bonita e gostosa, ou apenas fotogênica, acordo que fiz com a fotografia?

Uma voz grave ecoou – não estranhem, vales encantados são assim:

“Narciso, foste caluniado pelos homens,
por teres deixado cair, uma tarde, na água incolor,
a desfeita grinalda vermelha do teu sorriso.

Narciso, eu sei que não sorrias para o teu vulto, dentro da onda:
sorrias para a onda, apenas, que enlouquecera, e que sonhava
gerar no ritmo do seu corpo, ermo e indeciso...”

Mãos invisíveis acariciavam os seios intumescidos, outrora doloridos.  Sussurros nos ouvidos:

Por aveludadas texturas, cores que se atraem, que se traem
na imaginação do ensejo a fruição de desejo
romper rendas, atravessar teias
escorregadias margens
aveludadas texturas.

          Olhos fechados, lembranças das palavras bíblicas censuradas pela Irmãs dos tempos de colégio:
Teus amores são melhores do que o vinho. Eu te comparo à égua atrelada ao carro do Faraó. 
          Nosso leito é todo relva.

Morna, morna brisa.  Vozes, vozes sensuais:

“Estava perdida lá pelas Minas Gerais –
encantadora.
Que vontade de penetrar nas suas matinhas
de refrescar nos seus corregozinhos
comer franguinho assado – eta gostosura!
Naqueles campos, cavalgar – bela potranca
crinas negras, fogoso olhar.
mordiscar frutinhas, lamber melado.
Roçar o milharal, fazer fubá,
leite no curral.
Trepar no mangueiral
chupar até empanturrar
com tanta doçura.”

Frêmitos corporais.  Sonho, realidade?

De joelhos: Beijos-Um Beijo-Beijo Pra Você. 
De lado, de frente, sentada, deitada, de quatro: estopada pela espada – pensava não mais passaria na fenda de sua bainha. 
E o aroma não sabia de onde vinha. 

Na estrada uma porteira rangente falou:

“E se inda houver amor eu me apresento e me entrego ao princípio do oceano.  Eu me arrebento feliz, atravessada de esperança.  E se inda houver amor, eu simplesmente apago esta ferida do meu sono...”

Lá, no fundo do vale, a visão da Fazendola: numa regalia de almoço, galinha matada, morta – trucidada na hora. Sangue cozido entornado no caldo, delícia de tira gosto. Mandioca frita e vai mais branquinha, tudo isso literalmente na roça, em meio a bambus bananeiras e asneiras.

Notas:
(*). Fragmentos de Sírinx, Teócrito. 
      Tradução José Paulo Paes, 1993.  
- Outros fragmentos intertextuais: Corre mais que a Vela... e Esse Perfume, Emiliano Perneta; Parêmia de Cavalo, Carlos Drummond de Andrade; Viagem sobre o Espelho, Cassiano Ricardo; Águas Passadas, Maria Thereza Noronha, Epigrama, Cecília Meireles; E se Inda Houver Amor, Lucila Nogueira. 





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