quarta-feira, 27 de maio de 2020

Varanda das Infinitudes


Varanda das Infinitudes

          Momentos mágicos: nos finais de tarde sentava-me debruçado sobre o rio, redigindo anotações na Caderneta de Campo.  No estrondoso rolar das águas, o silêncio.  Movimento provocava quietude.  O ciclo da natureza.  Eternidade.  Pela manhã, ruidoso despertar com cantos de pássaros.  Depois, o gado pastando – no entardecer recolhiam-se tal pontos brancos, sumindo, sumindo na paisagem.  Pequenas aves ciscavam insetos no capim pisoteado na tarde que caía.  O anoitecer.  Explosões luminosas – miríades.  Gigantescos vagalumes brilhavam nas montanhas, rios e pedras, descortinando etéreo cenário.
          Varanda encantada.  Aqui meu escritório, poucos quilômetros serra acima de Casimiro de Abreu.  Além, Macaé, Campos.  Grandes transformações econômicas, paradoxalmente grandes riscos para vida e a cultura. 
          Pensava no jantar em São Pedro da Serra: olhos azul profundo, idade indefinida.  Pele branca.  Rugas marcadas, mostrando o castigo pelo sol tropical.  Lugar inusitado.  Poderíamos dizer pobre, mas sofisticado.  Fina louça e talheres recolhidos aqui e ali.  Cadeiras descasadas carregavam certa nobreza.  Toalha branca, guardanapos tão impecáveis que nem se notavam os puídos nas pontas, vela acesa na mesa sobre o chão de cimento.  Voz suave ia explicando a fondue, falando sua vida:

          Vivo entre amigos de origem suíça.  Na verdade puro acaso.  Viajei mundo afora procurando antigo amor brasileiro.  Coisas da juventude.  Agora vivo feliz neste lugar.  Preparamos vinho tinto, caldo de carne e especiarias – segredos de cozinheira.  Os pequenos escalopes de filé são cozidos neste molho.  Quando tudo parece terminar, a surpresa: fazemos a cocção de um ovo no resto do caldo, para finalmente mexermos ligeiramente, formando grumos.  Vira uma bela sopa.  O deguste final (1).

          O azul profundo se despedindo no cerrar das pálpebras que pareciam respirar, meditar em meio ao invisível.
          Pela manhã desci a serra, pensando nos imigrantes suíços que aqui chegaram pela primeira vez, encantados, dizendo: este será o nosso Rio Sena.  Agora com o tempo Sana (2).  Pensei nos cafezais, as tropas de mulas levando a colheita, subindo e descendo montanhas para o distante ramal ferroviário.  Grandes balsas subindo até Cachoeira do Macaé, embarcando sacas de café.  Águas passadas.
          A noite querendo chegar, Vênus brilhante caindo para Oeste, já quase desaparecendo no horizonte montanhoso.  A leste, Lua cheia surgindo, arrastando Júpiter luminoso como nunca.  Corri, peguei a luneta e, emocionado – lá estava o misterioso Urano, tão perto que parecia uma lua deste planeta gigante.  A dança celeste espelhava poesia (3):

                    Nas horas mortas da noite
                    Como é doce o meditar
                    Quando as estrelas cintilam...
                    Quando a Lua majestosa
                    Surgindo linda e formosa... (4)

          Fiquei pensando na vida.  No muito que trabalhei, nas belezas que via daquela varanda.  Magnífico escritório. 
          Inicialmente trabalhava apenas com cálculos de modelos matemáticos, onde, em função do tamanho das manchas verdes identificadas nesta região e de vários outros parâmetros, calculava a chance de uma espécie animal sobreviver, ocupando extensas áreas.  Depois passei também a fazer trabalhos de campo, medindo cursos de rio, estradas e demais fatores que poderiam facilitar ou dificultar a sobrevivência de animais ou vegetais.  Estudos importantes na definição de reservas naturais em equilíbrio com atividades agrícolas, de pecuária e turismo. 

          Notícia assustadora.  Uma das maiores áreas de preservação ambiental do Estado do Rio de Janeiro, a Reserva Particular do Patrimônio Natural dos Aymorés, foi invadida em nome do populismo eleitoreiro promovido pelo governo federal a quem caberia zelar pelas Leis (5).  Dezenas e dezenas de espécies animais e vegetais ameaçadas: árvores cobertas de fungos vermelho-róseos, sinal da pureza do ar, virando lenha.  O Gavião-pato, espécie em extinção e indicadora da qualidade ambiental de uma área, predado impiedosamente.  O Muriqui perdendo este corredor ecológico, não conseguindo mais transitar entre fragmentos florestais.  Para não falar no Mico-leão-dourado, restrito cada vez mais à Reserva de Poço das Antas.  Foi uma volta triste.  Apeei do cavalo, atravessei a Ponte de Arame (6) (V. Figura 15).  Parado, observava o Rio Macaé, navegável no passado até aquele ponto.  Na minha cabeça a desconstrução da poesia e da natureza.

                    Minha terra não tem palmeiras...
                    E em vez de um mero sabiá,
                    Cantam aves invisíveis
                    Nas palmeiras que não há (7).

          Esta noite nem a placidez da varanda aquietava-me.  No sono agitado vi um grupo de cinco alpinistas comemorando a escalada, pela primeira vez, do Pico do Peito de Pomba.  Um parou na minha frente falando (8):

          O Sana está vivendo uma nova época.  Chegou a luz.  Acho importante o Movimento de Defesa do Meio Ambiente no Sana.  Dou todo meu apoio e creio que todos devem apoiar; é preciso preservar a natureza, proteger o que resta em riachos e matas para nossos filhos e netos.  É preciso reflorestar, não poluir, construir fossas, deixar viver os animais.  Enfim, é preciso cuidar do Sana para nossas crianças.

          Sumiu no nada se despedindo poeticamente:

                    O filósofo passou a vida estudando,
                    O cantor passou a vida cantando.
                    Porém, o mais lindo desta vida,
                    São dois seres que passam
[a vida se amando.

          Agora, caminhando por noturnas praias infinitas, encontrei dois rapazes deitados na areia, conversando e observando o céu estrelado:

          Keats, a vida é fluida como névoa.  Fugidia como águas de um rio.  O mar, céu, nossos passos por este mundo, são tal viagens infinitas.  A natureza é permanente, nós nos vamos, ficam só pegadas.  Acabamos?  Alguns até nos vêm e escutam.  Nossas palavras ficaram.  A paixão, a beleza da poesia, vence a razão petrificada no tempo da Ciência – o tempo dos relógios.  É como o mar insondável.  As ondas são os anos.  Oceanos do tempo que recebe o sal do pranto dos humanos (9). 

          Shelley, sinto-me solitário tal a Estrela Polar.  Fosse eu imóvel como este astro fulgente, ficaria suspenso como uma luz deserta, a contemplar com a pálpebra imortal aberta, rodeando a Terra, o humano litoral?  Não! Mas firme e imutável, sempre a descansar no seio de meu belo amor, para sentir, e sempre, o seu arfar... E assim vivi, como o que espreita o céu e colhe na visão.  Algum novo planeta, assim fiquei então... (10).

          Estranha conversa.  Palavras ao vento?  Continuei pelas areias.  À frente já avistava a silhueta do promontório rochoso encimado pelo branco barroco da Igreja de São João Batista.  Do outro lado brilhava o Rio São João de encontro ao mar. 
          Na escuridão cruzei com um senhor, sotaque lusitano, que falou:

          Sou Latino.  Anote aí.  Estive com Casimiro em Portugal.  Ele um garoto, eu lá pelos meus trinta anos.  Publiquei duas décadas depois A Ciência na Idade Média.  Lá, encontrarás a chave para as quatro estrelas, não vistas mais que da primeva gente.  As estrelas de Dante, o Cruzeiro do Sul de Casimiro.  A bússola dos viajantes austrais.

          Do alto das pedras avistava dois jovens quase meninos, rindo e escrevendo versos alternadamente nas areias lambidas pelo salgado do mar e o doce do rio (11): 

          Logo, quando os corredores ficarem vazios,
          E todo o Sanatório adormecer,

                    Eu sinto que esta vida já me foge
                    Qual d’harpa o som final,

          a febre dos tísicos entrará no meu quarto
          trazida de manso pela mão da noite.

                    E não tenho, como o naufrágio nas ondas
                    Nas trevas um fanal!

          Os meus olhos brilharão como os da fera
          Que defende a entrada de seu fojo.

                    É um suplício atroz!
                    E pra contá-la falta à lira cordas
                    E aos lábios meus a voz!
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          Mas de repente, um clamor estranho acabou de se ouvir.  Parecia o despertar deste profundo sono.  Será a Ária dos Meninos Mortos?  Não há árvores, não há brisas, tudo está quieto para se ouvir a Ária dos Meninos Mortos (12).
          Acordei em paz.  Corri para examinar a Caderneta de Campo.  Lá, registrado: Latino Coelho (1825-1891).  Ver “A Ciência na Idade Média”.
          Eternidade das estrelas, da Ciência, eternidade da Poesia.  Nossas matas e animais sobreviverão. 
A vida sempre presente.


Notas:
1. Fondue Vigneronne
2. Nome do rio e do Distrito de Macaé, RJ, no sopé da Serra de Friburgo.
3. No mês de setembro de 2010 foi observada a máxima aproximação de Júpiter da Terra, nos quase últimos cinqüenta anos, coincidindo também com uma máxima aproximação de Urano.  Ambos podendo ser observados muito próximos.
4. Versos da poesia Saudades de Casimiro de Abreu.
5. Na madrugada de sete de setembro de 2010, a Fazenda Bom Jardim – entre os distritos de Córrego do Ouro e Conceição de Macabu, no município de Macaé, RJ, foi invadida e depredada.  O Governo Federal havia desapropriado esta área para fins de reforma agrária – conforme publicação no Diário Oficial da União de dois de setembro –, desconhecendo ser uma RPPN com mais de um milhão e meio de hectares.  Passada as eleições, esta fazenda foi desocupada em dezessete de novembro deste mesmo ano por força de uma liminar de reintegração de posse concedida pela Justiça Federal. 
6. Ponte pênsil de cabos de aço conhecida como Ponte de Arame
7. Uma Canção de Mário Quintana.
8. Declarações e poesia de Norival da Costa Dames, publicadas no Jornal de Sana, Órgão Informativo do Clube dos Amigos da Natureza, Sana, julho de 1986.  Diretor Responsável: Antenor L. Souza (Presidente).  Norival, também conhecido como Nori, em companhia de outros quatro alpinistas, escalou pela primeira vez o Pico do Peito de Pomba nesta região em 13 de maio de 1950. 
9. Fragmentos intertextuais de poesias de P.B.Shelley (1792-1822).
10. Fragmentos intertextuais de poesias de Keats (1795-1821).  “Algum novo planeta” é uma homenagem à descoberta de Urano: o poeta tomou conhecimento ao ganhar o livro Introduction to Astronomy, de John Bonnycastle, como prêmio escolar em 1811.
11. Referências a Casimiro de Abreu (1839-1860) e Ascânio Lopes (1908-1929).  Abaixo, fragmentos intertextuais de versos das poesias Horas Tristes e O Sanatório.
12. Fragmentos intertextuais da poesia Ária dos Meninos Mortos de Jorge de Lima.

Casimiro de Abreu, Barra do São João. Foto T.Abritta, 2010.


Publicado em “Os Meus Papéis”.

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