quinta-feira, 23 de julho de 2020

Chamem os Mineiros



          Nunca a perfeita interpretação da alma mineira foi atingida como nas histórias e piadas de Fernando Sabino:

          Mineiro é cauteloso, desconfiado, não gosta de revelar nem a identidade – falava o escritor:
– Qual é o seu nome todo? – pergunta o carioca.
– Diz a parte que você sabe – desconversa o mineiro.

          Diante de estranhos sua conversa é econômica:
– Ah, você também é de Minas?
– Sou, sim sinhô.
– De onde?
– De Minas mesmo.

          Em geral, tenta ser conciliatório, mesmo quando incitado a externar opiniões políticas:
– Que tal o prefeito daqui?
– O prefeito?  É tal qual eles falam dele.
– E o que é que eles falam dele?
– Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo que é prefeito.

          Mas o melhor da cultura mineira são os seus hábitos de economia, que muitos classificam como “pão-durismo”.  Na realidade, mostram uma preservação de recursos.  Em Minas já se cultuavam estas idéiastanto tempo, que podemos dizer que, enquanto os ecologistas de hoje vinham com o milho, a mineirada ia com o fubá. 
          em casa, durante minha infância e juventude, poupava-se, economizava-se, reciclava-se tudo.  Pecado mortal deixar comida no prato – muitas pessoas no mundo passavam fome.  Caixotes eram desmontados, pregos desamassados e guardados.  Com os barbantes usados faziam-se rolos, qualquer papel virava rascunho para escrever e desenhar, jornais e garrafas iam para o garrafeiro.  Praticamente nada jogado no lixo: qualquer objeto não mais necessário doava-se para alguém que necessitasse, ou desmontado para aproveitar peças, parafusos, porcas e arruelas, guardados em potes de vidros de azeitona ou geleia, devidamente etiquetados. 
          Dos familiares paternos, havia história de parente que partia os palitos de fósforos em dois.  Do lado materno, um vizinho da minha avó, em Belo Horizonte, retirou as lâmpadas de sua sala quando instalaram um poste de iluminação na rua, bem em frente a sua janela.  Outra vizinha, Dona Emília, exagerava um pouco na economia, transformando os gatos da região em guisados, filés acebolados e outros quitutes.
          Na casa em frente, Seu Trindade, figura importante do bairro, proprietário do único telefone da rua e guarda civil aposentado, era econômico a seu modo.  Nunca saía, vestia ano inteiro o mesmo pijama encardido.  Da janela não deixava de cumprimentar cada morador:

– Já vai sair, né Dona Lourdes?
– Já voltou, né Dona Lourdes?

          Quando passávamos férias na casa de nossa avó, não podíamos dormir com luzes acesas.  Na manhã seguinte, uma romaria para perguntar quem ficou doente durante a noite.  , desconheciam-se medicamentos industrializados.  Toda farmácia vinha das ervas do quintal.  Na frente da casa não existia muro e sim uma espécie de cerca viva, que tomava também boa parte da calçada de terra.  Diariamente, pouco antes do almoço, aquele perguntar constante: Dona Lourdes, posso pegar ora-pro-nobis?  Mostrando que aquele matagal era na verdade uma verdura, que complementava a alimentação de todos, inclusive da vizinhança – uma das heranças da cultura escrava, que descobriu seu valor nutritivo.  E assim o pessoal ia vivendo...


Ora-Pro-Nobis florido.  Foto 2009 ©

          Hoje em dia, por mais que lutemos por políticas públicas de preservação ambiental, uma ação individual é necessária no sentido de poupar recursos naturais e diminuir o lixo que produzimos e que contamina o meio ambientePara isto, pequenas ações como levar suas próprias sacolas para o mercado, evitando os sacos plásticos, separar o lixo doméstico para reciclagem, apagar lâmpadas desnecessárias, imprimir nos dois lados de uma folha de papel, e tantas outras que vão se somando e acabam produzindo resultados significativos
          Portanto, deixando o folclore de lado, uma economia “tipo mineira” não deve ser desprezada. 

Crônica publicado em abril de 2009 no Montbläat e posteriormente no livro Memórias, História e Imaginação.  A maravilhosa foto que ilustra esta postagem, me foi enviada na época por uma leitora de Minas Gerais.  



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