segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Um encontro com Mme. Coudreau


          Infelizmente cartas caíram em desuso.  Por um lado, temos a rapidez nas comunicações, mas perdemos a sensação de abrir o envelope e ler escritas de amor, dor, literatura...

          As últimas cartas que recebi foram da escritora Olga Savary, onde ela comenta o meu livro “Cidades de Memórias” e nosso encontro com a desconhecida Mme. Coudreau na crônica “Delírios Tropicais”.  Pela coincidência deste encontro em plena Amazônia, reproduzo abaixo um trecho desta crônica e fac símiles da carta recebida.

 

          “Em 1899, o naturalista Henri Coudreau acompanhado de sua esposa, também naturalista, Mme. Coudreau, após percorrer durante meses rios paraenses, encontra a morte às margens do Rio Trombetas.  Mostrando uma grande coragem, mesmo desolada com a perda do marido, Mme. Coudreau continua a excursão pelo Rio Cuminá, onde, em um tenso encontro com os índios da região, teve que tirar parte de suas roupas e mostrar os seios em troca de sua vida.  O mais incrível nesta história toda é que, anos depois, em 1925, uma excursão liderada pelo geólogo Avelino de Oliveira e Picanço Diniz, ao encontrar um grupo de índios Pianocotó, na mesma região, fizeram contato verbal usando como intérprete uma índia “domesticada” falando o dialeto caxinauá.  Os índios, ao verem uma mulher aparentemente branca, que vestia roupas, fugiram apavorados, exceto um jovem nativo que ordenou, na língua comum, que ela mostrasse os seios e, a vista destes, abaixou o arco abandonando a atitude hostil.  Aqui cabem algumas considerações: será que a atitude desse índio é baseada em conhecimento do mesmo fato anterior através uma tradição oral?  Ou cabe aqui a teoria do inconsciente coletivo de Jung?  Ou será que esta prática voyeurística de alguma maneira está relacionada com o trabalho de catequese do Padre Nicolino, que percorreu esta região por mais de vinte anos em três sucessivas expedições no final do século XIX?  Afinal de contas o princípio básico de qualquer catequese religiosa é a destruição da religião, da moral e dos costumes do povo a ser dominado...”





 

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