Infelizmente
cartas caíram em desuso. Por um lado,
temos a rapidez nas comunicações, mas perdemos a sensação de abrir o envelope e
ler escritas de amor, dor, literatura...
As
últimas cartas que recebi foram da escritora Olga Savary, onde ela comenta o
meu livro “Cidades de Memórias” e nosso encontro com a desconhecida Mme.
Coudreau na crônica “Delírios Tropicais”. Pela coincidência deste encontro em plena
Amazônia, reproduzo abaixo um trecho desta crônica e fac símiles da carta
recebida.
“Em 1899, o naturalista Henri Coudreau
acompanhado de sua
esposa, também
naturalista, Mme. Coudreau, após percorrer durante meses rios
paraenses, encontra
a morte às margens
do Rio Trombetas. Mostrando uma grande
coragem, mesmo
desolada com a perda
do marido, Mme. Coudreau continua a excursão
pelo Rio Cuminá, onde, em um tenso encontro com os índios
da região, teve que
tirar parte
de suas roupas
e mostrar os seios
em troca
de sua vida. O mais
incrível nesta história
toda é que, anos
depois, em
1925, uma excursão liderada pelo geólogo Avelino
de Oliveira e Picanço Diniz, ao encontrar um grupo de índios
Pianocotó, na mesma região,
fizeram contato verbal
usando como intérprete
uma índia “domesticada” falando o dialeto caxinauá. Os
índios, ao verem uma mulher aparentemente branca,
já que
vestia roupas, fugiram apavorados, exceto um jovem nativo que ordenou, na língua
comum, que
ela mostrasse os seios
e, a vista destes, abaixou o arco abandonando a atitude hostil. Aqui
cabem algumas considerações: será que a atitude desse índio é baseada em conhecimento do mesmo
fato anterior
através uma tradição
oral? Ou cabe aqui a teoria do inconsciente coletivo de Jung?
Ou será que
esta prática voyeurística
de alguma maneira está relacionada com o trabalho de catequese do Padre
Nicolino, que percorreu esta região por mais de vinte anos
em três
sucessivas expedições no final do século
XIX? Afinal
de contas o princípio
básico de qualquer
catequese religiosa
é a destruição da religião,
da moral e dos costumes
do povo a ser
dominado...”


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