“Insomnia
I”. Remedios Varo, 1947
Não
durmo, nem espero dormir.
Nem
na morte espero dormir.
Espera-me
uma insônia da largura dos astros,
E
um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não
durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não
posso escrever quando acordo de noite,
Não
posso pensar quando acordo de noite
Meu
Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah,
o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não
durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E
o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam
por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
Todas
aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam
por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
Todas
aquelas de que me arrependo e me culpo
Passam
por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E
até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Não
tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito
a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá
fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um
grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra
ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.
Estou
escrevendo versos realmente simpáticos
Versos
a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos
a teimar em dizer isso,
Versos,
versos, versos, versos, versos...
Tantos
versos...
E
a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!
Tenho
sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou
uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma
abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo
o necessário para sentir consciência,
Salvo
sei lá salvo o quê...
Não
durmo. Não durmo. Não durmo.
Que
grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que
grande sono em tudo exceto no poder dormir!
Ó
madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem,
inutilmente,
Trazer-me
outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem
trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque
sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo
a velha literatura das sensações.
Vem,
traz a esperança, vem, traz a esperança.
O
meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me
as costas de não estar deitado de lado.
Se
estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem,
madrugada, chega!
Que
horas são? Não sei.
Não
tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não
tenho energia para nada, para mais nada...
Só
para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim,
escritos no dia seguinte.
Todos
os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite
absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz
em toda a Natureza.
A
Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A
Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma
dizer-se isto.
A
Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas
mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente.
Mas não durmo.
Insônia, Fernando Pessoa
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