O CÃO
Mauro Mota
A Edson Nery da
Fonseca
É um cão negro. É
talvez o próprio Cão
assombrado e fazendo assombração.
Estraçalha o silêncio com seus uivos.
A espada ígnea do olhar na escuridão
assombrado e fazendo assombração.
Estraçalha o silêncio com seus uivos.
A espada ígnea do olhar na escuridão
separa a noite, abre
um canal no escuro.
Cão da Constelação do Grande Cão,
tombado no quintal, espreita o pulo:
duendes, fantasmas de ladrão no muro.
Cão da Constelação do Grande Cão,
tombado no quintal, espreita o pulo:
duendes, fantasmas de ladrão no muro.
O latido ancestral
liberta a fome
de tempo, e o cão, presa do faro, come
o medo e a treva. Agita-se, devora
de tempo, e o cão, presa do faro, come
o medo e a treva. Agita-se, devora
sua ração de cor.
Pois, louco e uivante,
lambe os pontos cardeais, morde o levante
e bebe o sangue matinal da aurora.
lambe os pontos cardeais, morde o levante
e bebe o sangue matinal da aurora.
Aqui, Mauro Mota faz uma
metáfora com a Constelação do Cão Maior e
seu vagar noturno, surgindo no leste do horizonte matinal, tal um renascer e
“morrendo” a oeste no entardecer. O céu
descrito nesta poesia, pode ser visto na região de Recife, terra do poeta,
entre o final de junho e início de julho, quando esta constelação surge por volta das cinco horas da madrugada e se
põe entre cinco e seis horas da tarde, portanto, de acordo com a imagística da
poesia.
Nesta constelação está a
estrela mais brilhante de todos os céus, Sírius,
conhecida pelos antigos egípcios como Sótis,
o astro que após longo desaparecimento surge brilhante no horizonte do Nilo,
marcando o início do ano para este povo.
Para os antigos gregos, Cão Maior representa um dos cães que
seguiam Órion, O Caçador.
Nota:
Para analisar uma poesia, leva-se em
conta seus aspectos formais como: isometria, rima, metro, enjambements;
aspectos morfossintáticos: verbo, adjetivo posposto ou anteposto, inversões
etc. São considerados também: aspectos
fonéticos, semânticos, imagísticos, bem como outros fatores como plasticidade,
vocabulário, etc.
Outra maneira de “ver” um poema, seria
através de sua temática, dos seus não-ditos e encantamentos que nos trazem.
Neste poema de Mauro Mota fizemos uma
análise pensando apenas na beleza e imaginação do poeta diante do céu noturno
recifense.
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