domingo, 5 de março de 2017

O Colecionador e o Antiquário


...O nosso colecionador sentia-se como Policarpo Quaresma.  Indignava-se com a imagem daquele ex-ministro-cantor saracoteando, enquanto a cultura brasileira embarcava em viagem sem volta no Expresso 2222.  Em suas missivas à imprensa, enumerava até o último algarismo os milhares de documentos, fotografias, mapas e obras de arte desaparecidos com a desídia governamental.  “O populismo, em busca do voto fácil, é semeador da ignorância, pobreza e corrupção”.  Assim terminava invariavelmente seus desabafos. 
Diante daqueles que cultuavam a informática como nova religião, gostava de desafiá-los em seu próprio território:
– O que é uma porta lógica AND ou quem sabe NAND?  E não sabiam a OR ou simplesmente NOR.  Meros apertadores de botões, sem raciocínio ou vontade própria.  Uma carneirada a serviço do poder. 
A vida não era apenas amargura.  Transformava-se completamente com a efusiva recepção do Antiquário de Itaipava.
– O Senhor está mais magro.  A Senhora mais jovem.  Estamos mudando de ramo.  As peças estão baratíssimas.  Arrematei quase tudo de um luxuoso, e antigo, navio europeu que foi desmontado num estaleiro de Niterói.  Amanhã faremos um leilão.

– Quanto dão?  Quanto dão? 
– Quem dá mais?  Quem dá mais? 
– Esta bengala de castão de ouro!
– Esta arca colonial!
– Este faqueiro de prata!
– Esta louça azul de Macau!

– Com sorte podem ver a fumaça da última sopa na terrina ou os vestígios dos lábios da duquesa na borda daquela xícara com asa quebrada!
Meses depois, nova visita, mesma recepção:
– O Senhor está mais magro.  A Senhora mais jovem.  Estamos mudando de ramo.  As mesmas peças, apenas mais poeira.
Nesta noite Natanael escutou o apito de um luxuoso e antigo navio.  Em sonho de vida ou morte, sua coleção navegou serra de Petrópolis acima. 
O Antiquário de Itaipava exultava de alegria:
– Vendi tudo!  Como lembrança, apenas a fotografia desta igrejinha de Minas.  Já vem com dedicatória.  Mudarei de ramo.  Farei Leilão de Jardim.

Quem me compra um jardim com flores?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Quem me compra este formigueiro?
E a cigarra e a sua canção?
    (Este é o meu leilão!)

         Finalmente, Natanael partiu para férias eternas, embarcando no trem de ferro da Central do Brasil rumo à mítica Escola de Grumetes de Pirapora – lembranças do tio Ítalo da infância.  Que aprendeu a arte de navegar, e pelo São Francisco alcançou mares infinitos. 


Escola de Aprendizes de Marinheiros, Pirapora, Minas Gerais. 
Residência do Comandante, 1911.
Foto do Acervo do Arquivo Nacional.

Será que uma pequena invasão da Realidade tira o encanto da Magia Ficcional?
Mas não resisti ao ver esta foto do “Tio Ítalo”, tão garboso, em seu uniforme de Suboficial.


Acervo Teócrito Abritta.

Notas:
-Intertextos com fragmentos das poesias Leilão de Mauro Mota e Leilão de Jardim de Cecília Meireles.
-Fragmento do conto O Colecionador e o Antiquário publicado em Memória, História e Imaginação.


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