...O nosso colecionador
sentia-se como Policarpo Quaresma.
Indignava-se com a imagem daquele ex-ministro-cantor saracoteando,
enquanto a cultura brasileira embarcava em viagem sem volta no Expresso 2222. Em suas missivas à imprensa, enumerava até o
último algarismo os milhares de documentos, fotografias, mapas e obras de arte
desaparecidos com a desídia governamental.
“O populismo, em busca do voto fácil, é semeador da ignorância, pobreza
e corrupção”. Assim terminava
invariavelmente seus desabafos.
Diante daqueles que
cultuavam a informática como nova religião, gostava de desafiá-los em seu
próprio território:
– O que é uma porta
lógica AND ou quem sabe NAND? E não
sabiam a OR ou simplesmente NOR. Meros
apertadores de botões, sem raciocínio ou vontade própria. Uma carneirada a serviço do poder.
A vida não era apenas
amargura. Transformava-se completamente
com a efusiva recepção do Antiquário de Itaipava.
– O Senhor está mais
magro. A Senhora mais jovem. Estamos mudando de ramo. As peças estão baratíssimas. Arrematei quase tudo de um luxuoso, e antigo,
navio europeu que foi desmontado num estaleiro de Niterói. Amanhã faremos um leilão.
– Quanto dão? Quanto dão?
– Quem dá mais? Quem dá mais?
– Esta bengala de castão
de ouro!
– Esta arca colonial!
– Este faqueiro de prata!
– Esta louça azul de
Macau!
– Com sorte podem ver a
fumaça da última sopa na terrina ou os vestígios dos lábios da duquesa na borda
daquela xícara com asa quebrada!
Meses depois, nova visita, mesma recepção:
– O Senhor está mais
magro. A Senhora mais jovem. Estamos mudando de ramo. As mesmas peças, apenas mais poeira.
Nesta noite Natanael
escutou o apito de um luxuoso e antigo navio.
Em sonho de vida ou morte, sua coleção navegou serra de Petrópolis
acima.
O Antiquário de Itaipava
exultava de alegria:
– Vendi tudo! Como lembrança, apenas a fotografia desta
igrejinha de Minas. Já vem com
dedicatória. Mudarei de ramo. Farei Leilão de Jardim.
Quem me compra um jardim
com flores?
Quem me compra este
caracol?
Quem me compra um raio de
sol?
Quem me compra este
formigueiro?
E a cigarra e a sua
canção?
(Este é o meu leilão!)
Finalmente,
Natanael partiu para férias eternas, embarcando no trem de ferro da Central do
Brasil rumo à mítica Escola de Grumetes de Pirapora – lembranças do tio Ítalo
da infância. Que aprendeu a arte de
navegar, e pelo São Francisco alcançou mares infinitos.
Escola
de Aprendizes de Marinheiros, Pirapora, Minas
Gerais.
Residência
do Comandante, 1911.
Foto do Acervo do Arquivo Nacional.
Será que uma pequena
invasão da Realidade tira o encanto da Magia Ficcional?
Mas não resisti ao ver
esta foto do “Tio Ítalo”, tão garboso, em seu uniforme de Suboficial.
Acervo Teócrito Abritta.
Notas:
-Intertextos com fragmentos das poesias
Leilão de Mauro Mota e Leilão de Jardim de Cecília Meireles.
-Fragmento do conto O Colecionador e o Antiquário publicado
em Memória,
História e Imaginação.

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