domingo, 19 de março de 2017

90 anos da revista Verde

Verde que te quero verde

          Sempre que pensamos na história de um jornalismo mais cultural e literário, as lembranças mais imediatas são algumas publicações dos anos 60 e 70, como a revista Senhor onde escreviam Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Jorge Amado , o tablóide O Pasquim e o jornal literário OpiniãoOutra publicação que marcou época foi a Revista Civilização Brasileira, editada por Ênio Silveira, tendo como colaboradores Celso Furtado, Nelson Werneck Sodré, M. Cavalcanti Proença, Otto Maria Carpeaux, Dias Gomes, Moacyr Felix e muitos outros, que nos perdoem as injustiças nas omissões das citações.  Infelizmente esta revista foi esquecida e enterrada no tempo, deixando de trazer substância importante para os chamados “intelectuaisque se calam hoje em dia, que muitas das críticas feitas às violências praticadas no passado são atuais para os governantes de hoje.  Nestes tempos de “apagão ético” e desesperança em que vivemos, é importante olharmos o passado garimpando exemplos que nos animem em um movimento de resistência cultural.  Neste sentido seria interessante retrocedermos alguns anos, quando na Zona da Mata Mineira foi lançada, há mais de oitenta anos, uma revista literária que repercutiu em grandes centros como Rio e São Paulo, sensibilizando a sua intelectualidade com o idealismo de um grupo de jovens mineiros.  Estamos falando da revista Verde, que significava mocidade, lançada em setembro de 1927, na cidade de Cataguases, por poetas e literatos que ecoavam da Semana de Arte Moderna de 1922, com suas irreverências criativas e a luta pela não acomodação da culturaEste grupo constituído por: Henrique de Resende, Ascânio Lopes, Rosário Fusco, Guilhermino César, Christophoro Fonte-Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco Peixoto lançaram o Manifesto do Grupo Verde de Cataguazes, que transcrevemos, em parte, abaixo:

Resumindo
1-    trabalhamos independentemente de qualquer outro grupo literário.
2-    temos perfeitamente focalizada a linha divisória que nos separa dos demais modernistas brasileiros e estrangeiros.
3-    nossos processos literários são perfeitamente definidos.
4-    somos objectivistas, embora diversíssimos, um dos outros.
5-    não temos ligação de espécie nenhuma com o estilo e modo literário de outras rodas.
6-    queremos deixar bem frisado a nossa independência no sentido “escolástico”.
7-    Não damos a mínima importância à crítica dos que não nos compreendem.
            E é isso.

          Estes poetas e literatos, quase meninos – Rosário Fusco, por exemplo, tinha apenas dezessete anos –, conseguiram levar sua mensagem à intelectualidade deste tempo, em uma época sem Internet, escrevendo muitas cartas e telegramas. Com o segundo número de Verde começaram chegar a esta cidadezinha da Zona da Mata, artigos, notas, cartas, poemas e desenhos de Mário e Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Graça Aranha, Afonso Arinos de Melo Franco, Marques Rebelo, Tristão de Athayde, João Alphonsus, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e muitos outros.
          Ribeiro Couto escrevia: Nem Astolfo Dutra, que chegou à Presidência da Câmara dos Deputados, nem Astolfo de Resende, que se tornou um dos maiores jurisconsultos do país, ambos cataguasenses, conseguiram revelar Cataguases, os meninos da Verde o fizeram.  Mário de Andrade enviava cartas, bilhetes e telegramas com conselhos e descomposturas.


O celeiro da Verde: alunos e jovens professores do Ginásio de Cataguases, maio de 1927.  Nesta foto identificamos Guilhermino César – o quarto da esquerda para direita, na terceira fila, em pé – e Oswaldo Abritta – o quinto da esquerda para direita, na segunda fila, também em pé.  Podemos identificar, ainda, Oduvaldo, irmão de Oswaldo – o segundo da esquerda para direita, sentado na primeira fila –, que ingressava no colégio com uma bolsa de estudos da prefeitura para estudantes carentes.  Foto acervo Teócrito Abritta.

          Foram lançados apenas seis números da revista Verde, o primeiro em setembro de 1927 e o último em maio de 1929 dedicado a Ascânio Lopes, um dos grandes poetas do grupo, que morreu do “peito” aos vinte e três anos de idade, e com ele morreu a Verde.
          A revista Verde acabou, mas os seus ideais éticos e culturais foram levados a este Brasil afora pelos seus idealizadores que se tornaram professores, juízes, advogados e jornalistas.

          as coisas efêmeras são belas.  Verde foi bela porque efêmera.  Soube viver e morrer, depoimento de Graça Aranha a Henrique de Resende.

Notas:
- Verde que te quero verde, da poesia Romance Sonâmbulo – Federico Garcia Lorca.
- Crônica publicada em Memória, História e Imaginação



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