Agradeço seus comentários
e atenção pelo meu livro, lendo e relendo linhas e entrelinhas, em particular o
conto Galinha Matada.
Escrever sobre temas mais
psicológicos, ou seja, o Eu interior, penetrando fundo na alma feminina, é um
tanto complexo.
Diante das suas
indagações sobre os limites do fazer literário e a realidade, escrevi um
pequeno ensaio, esperando que não tenha revelado totalmente meus “segredos”. Fica como um compartilhamento das minhas
técnicas de escrita, diante do seu grande interesse pela Literatura e assuntos
correlatos.
Não
sei se responderei a suas indagações.
Mas a ideia é esta mesma: levar os leitores a uma reflexão
engrandecedora e não apenas lúdica.
Agradeço
também pela imagem que enviou, onde a reprodução desta pintura de Marc Chagall,
perturbadoramente bela, aponta um novo enfoque para o texto. Ilustro o ensaio com tal imagem, deixando
como legenda parte de seus comentários.
Sobre
“Os Meus Papéis”
Quando escrevemos esperamos que os
leitores se identifiquem com os textos.
Mas nem sempre isto acontece.
Fica faltando um quê de realidade.
A sua grande identificação com o conto
Galinha Matada muito me alegra. Escrever sobre reflexões filosóficas e o
íntimo da alma feminina é difícil, ainda mais num tom poético e sensual, sempre
com extrema delicadeza. Portanto esta
sintonia é positiva. O texto trata de
preocupações e sentimentos profundos, mas sempre levando ao caminho da
esperança.
Não é o que todos almejam?
Uma coisa é descrever
sentimentos. Outra é penetrar nos
pensamentos, lendo-os como um livro aberto – a mente masculina invadindo o universo
feminino, rompendo suas rendas e experiências particulares. Como isto é impossível, usei uma técnica de “emoldurar”
o texto com citações diversas, cenários maravilhosos, poesias intrigantes e
provocativas (ver, por exemplo, na página vinte e oito). Usei também uma grande carga de símbolos,
como a cobra, a égua e imagens de forte apelo emocional e sensual. Ou seja, fui criando um ambiente para a
pessoa sentir-se acolhida e perder-se nas idas e vindas entre o real e
imaginário, acabando por entrar na personagem e fazendo parte da história, como
você mesmo comentou: parecia que me
desnudava física e emocionalmente...
Para escrever este texto tive que
reler Bergson, rever filmes, como Morangos
Silvestres – que trata da velhice e o passar do tempo – e juntar uma
infinidade de textos, citações, poemas e até pesquisar na Bíblia para encontrar
a citação usada. Note que o poema Sírinx, de Teócrito (claro, o grego), foi
tirado de uma tradução que saiu no jornal em 1993. Outra obra muito consultada foi O Homem e seus Símbolos de Carl G. Jung,
que muito contribuiu na construção dos cenários e nas imagens provocativas ou
enigmáticas.
Assim foi montada a armadilha para uma
leitora fiel como você perguntar:
Ali estou ou sou eu?!
Ler
“Galinha matada” é proposta para variadas leituras. Se tivesse de sugerir uma imagem, seria esta
de Chagall: a personagem esplendorosamente triunfante e o narrador tentado
entrar na história, cavalgando neste cenário de sedução.

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