O que
nos assusta nas dezenas
de vítimas causadas pelas epidemias de
dengue, meningite, febre amarela, maculosa, suína, e outras que há muito
deveriam ter sido erradicadas, é o falecimento
de um grande
número de jovens e crianças. Parecem botões
de flores impedidos de desabrochar
ao ter suas trajetórias
abruptamente interrompidas. O mais
grave é que
são mortes
perfeitamente evitáveis ,
se não fosse a incúria
das autoridades públicas, que priva boa parte
da sociedade de um
saneamento básico
e de assistência médica
compatível com
a nossa época . Aos doentes
nada resta
do que esperar
a morte nas infindáveis
filas de um
suposto atendimento, enquanto as autoridades
públicas apenas se preocupam com seus desgastes
eleitorais , desviando a atenção popular
com acusações
mútuas, tal um bando
de criminosos defendendo-se.
As constantes e recentes notícias
destas perdas muito me lembraram o sofrimento do poeta
Ascânio Lopes, um dos fundadores da revista
Verde
que morreu aos vinte e dois anos de
idade, de tuberculose, em 1929. Nesta época , sem antibióticos
e sem os conhecimentos
atuais da medicina ,
os pacientes esperavam a morte
em sanatórios ,
apenas com
algum conforto
que aliviasse o sofrimento e a certeza da morte . O jovem
Ascânio lutava pela vida
compondo poemas que
descreviam sua luta
contra a morte, que
rondava os lúgubres corredores
do hospital nas infindáveis
noites de espera
pelo fim. O seu poema Sanatório nos impressiona pela
semelhança com
os dias atuais ,
quando os avanços
da medicina não
chegam a boa parte da população . A todos aqueles que hoje sofrem
como nestas décadas
passadas , abaixo
transcrevo um poema
deste jovem escritor
produzido em seus
últimos momentos .
As
Estrelas
E começou a construir uma torre para alcançá-las.
e as estrelas cada vez
brilhavam mais .
e o céu tão
longe e as estrelas
tão altas
E debruçou-se no alto da torre alta .
no espelho das águas paradas .
A década
de 60 testemunhou uma das mais
fantásticas experiências educacionais brasileira ,
que foi o Colégio
de Aplicação, da antiga Faculdade
Nacional de Filosofia
da Universidade do Brasil (ver Figura ). Neste colégio ,
conhecido como
CAp, os estudantes não
só tinham um
ensino de qualidade ,
como eram despertados para
a democracia e cidadania
com grande independência
intelectual . Para isto , eram incentivados a participar
de clubes de ciências ,
história e geografia. Tinham o apoio de excursões
culturais, contavam com serviço de orientação educacional
com psicólogos
que os assistiam, participavam de palestras com personalidades
de nossa cultura ,
recebendo uma educação a mais completa possível neste
colégio público .
Estudantes
do Colégio de Aplicação. Guilhermino Abritta é o primeiro aluno em pé
à esquerda. Foto acervo Teócrito
Abritta.
Neste ambiente
intelectualmente estimulante ,
Clarice Lispector falava sobre o conto moderno e
apresentou seu livro ,
ainda inédito ,
A Maçã
no Escuro . Adonias Filho
falou sobre seu
livro recém lançado na época ,
Corpo Vivo . Outros
escritores e pessoas
atuantes em
nossa cultura
sempre davam sua
colaboração a estes
jovens , como
Fernando Sabino, Jorge Amado , Manuel Bandeira , jornalistas
como Jânio de Freitas e Zuenir Ventura e vários
músicos , artistas ,
cientistas e historiadores da época .
Esta efervescência
cultural lhes dava grande independência intelectual , com
os estudantes se manifestando em seu jornal A Forja . Isto fazia com que estes jovens não se
filiassem facilmente a partidos ou grupos políticos , por considerarem as análises e interpretações da sociedade
brasileira por
eles produzidas, insuficientes
e fracas do ponto de vista
teórico e conceitual
(Alzira Alves de Abreu, Intelectuais
e Guerreiros : O Colégio
de Aplicação da UFRJ de 1948 a 1968 – Editora da UFRJ, Rio de Janeiro
– 1992).
Publicado
em Memória,
História e Imaginação e em Memórias
de um Colégio, Revista Perspectiva Capiana.
Nota:
-
Hoje, Mino, como o chamávamos, faria 69 anos.
Abaixo uma pequena homenagem às suas brincadeiras, jogos de palavras e
enigmas. Aiobji’s era como
apelidava duas das minhas irmãs: a menor e a do meio.
Aiobji
...no
seu contrário
embaralhado
ler: Jiboia
criador
e
criatura.
a
obra
e
a cobra.

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