sexta-feira, 28 de abril de 2017

Rua do Amparo ontem e hoje


          O susto foi grande.  Depois que saiu a charge no jornal – com um sujeito magricela, de óculos, montado de costas num pangaré, seguido por uma mulher a pé com uma criança no colo; todos sendo expulsos da cidade debaixo de uma chuva de ovos podres – fiquei cismado.  De manhã, quando escovava os dentes no tanque, já ia com o revólver no bolso do pijama.  Minha mulher foi quem me acordou, dizendo: “estão chegando”.  Só tive tempo de colocar um caixote nos fundos do terreno para ela subir, pular o muro dos fundos e falar: “se esconda na casa do Seu Anízio que vou depois”.
          Coloquei o sofá atravessado no corredor, entre as portas do quarto e do escritório, me escondi atrás, a 44 com bala na agulha e o revólver à mão.  Munição espalhadas pelo chão para facilitar as recargas.  De lá podia vigiar a janela do escritório à esquerda, a janela do quarto à direita e a porta de entrada na frente.  Em um dos três pontos entrariam primeiro.  Só atiraria em quem colocasse um pé dentro de casa.  O vozerio foi aumentando, aumentando, e por milagre começou a diminuir, diminuir.  Já escutava claramente as rezas, com todos os améns.  Quando abri a janela, ainda cumprimentei alguns conhecidos na procissão.  Acendi um cigarro e logo chegou Seu Anízio todo assustado.

Aqui vão duas fotos da casinha da Rua do Amparo.  A antiga é da década de 40.  A atual foi obtida usando o Google Earth.  Parece que só trocaram a porta, depois que foi rachada pelos cascos de Desatino (ver pág. 23 do livro Jequitinhonha).









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