domingo, 2 de julho de 2017

Imaginação e Obsessão


          Não sei o que pode estar acontecendo.  Uma encomenda Sedex, Belo Horizonte-Rio, leva no máximo três dias para chegar.  Já faz uma semana.  Por aqui o correio não aparece há dois dias.  Bem, dizem que é a greve de ônibus. 
As aspas foram culpadas por tudo isto.  Quando ela escreveu que, além da Antologia, enviaria uma “coisinha” mineira que não era cachaça nem pão de queijo, começou a minha curiosidade.  Depois angústia, agora verdadeira obsessão.  As aspas davam um sentido conotativo que me intrigava.  Perdida a razão, pensamentos começam a ficar confusos, realidades são criadas.  A imaginação concretiza-se.
Mero símbolo linguístico-gráfico.  Mas tão significante. 
As aspas foram culpadas...

          Fui selecionada para a Antologia de Outono.  No lançamento, todos se reuniram para um concerto de música clássica, coral e a leitura dos poemas.  Fui também escolhida para proferir as palavras de abertura.  Verdadeira maravilha a cerimônia. 
          Fiz um agradecimento para você, como parte das pessoas que me fizeram pensar a Literatura e usei nas minhas palavras suas sugestões que resultaram nos meus poemas:
          “Outono é uma estação do ano, marca no ritmo da Natureza.  Folhas secam, galhos nus, hora de recolhimento, de descanso para enfrentar as dificuldades da próxima estação.  Tempos de migração para milhares de aves que atravessam o Mundo com as mudanças do clima.”
          “Que tal um paralelo entre a vida e o ritmo da Natureza?”
          “Observe as árvores, arvore!”
          “Deixe os pensamentos ‘migrarem’, invadirem seu íntimo, traírem seus segredos!”

          Agradecida, seguem fotos em anexo.

          Seria apena mero registro visual de uma cerimônia literária-festiva.  Mas havia as aspas da “coisinha” e o caráter conotativo.  As imagens certamente traziam significados ocultos.  Ampliei-as em uma grande tela de computador, esmiuçando cada detalhe. 
          Não a imaginava tão jovem.  Que idade teria?  Entre quarenta e cinquenta?  Não sei.  Prefiro dizer: jovem senhora de idade indefinida. 
          Era muito bonita.  Longos cabelos negros, cintura fina, insinuantes sinuosas curvas.  A elegância do vestir valorizava o corpo.  Casaquinho de veludo claro com textura e talhe fashion.  Bolsa de design a tiracolo.  Blusa cintada com fiapos nas bordas – pequeno toque de informalidade.  Longa saia justa indo até os pés, feita de um tecido que delineava o corpo. 
          Estas definições de “cenários” pelo menos me distraíam, atraíam, fazendo-me esquecer um pouco da “coisinha” que a qualquer hora bateria na porta.

          O lindo sorriso invadindo a tela.  Aproximando aqueles olhos até sentir seu arfar, via um quê de tristeza.  No fundo é desta multiplicidade de sentimentos que nasce a criatividade poética.
          Rolei a imagem passando pelos ombros, braços.  Deslizei as mãos pela delgada cintura.  Já misturava o real e imaginário. 
          A sinuosidade dos quadris, ancas, pernas.  Perfeição de formas, valorosa geometria.
          A pulsação acelerando, vista turva.  Abandonava perigosamente o mundo real.
          Despertei com o iPad anunciando a chegada de nova mensagem:

          Estou rastreando a encomenda.  A “coisinha” já está em processo de entrega.  Hoje deve recebê-la. 

Cambaleante, fui atender o interfone, seguido pelo onisciente olhar.

          Chegou!  Agora em minhas mãos!
Uma colorida caixa azul, toda etiquetada, escrita à mão com marcantes letras. Dentro, um envelope de papel metalizado guardava a antologia e uma caixa de madeira preta: a "coisinha".
No livro, os poemas e doce dedicatória.
Na caixa, uma rocha acompanhada das palavras: Para você, um pedacinho do Rio São Francisco.

          Ainda rastreado por aquele olhar, nova mensagem:

Não falei que era só uma coisinha, grande é o prazer de lhe enviar, tão importante tem sido nesta minha trajetória, seu apoio.
Admirar e catar pedras são manias que trago desde menina.
Segue imagem da rocha no lugar de origem.  São terrenos em camadas, que vão se desmanchando, formados em fundo de lagos.  O lugar é bem interessante e sugestivo.
Lá pisando ou sentada, solitária pensava e sentia a importância do tempo e o trabalho das águas.
“Eternidade”.

          Interessante como sonhos podem confundir-se com a realidade, mesmo alguns segundos após sermos despertados por estridentes ruídos de tablets e interfones.
          Emocionado pelo original presente, agradeci formalmente a gentileza da lembrança.

          Mas as aspas, lá ainda estavam em “Eternidade”.
          Como diz a sabedoria popular:

          “Aí tem coisa”

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