domingo, 2 de julho de 2017

Prezada Senhora Magdalena


          Parabéns por continuar dentro da Cultura Mineira, valorizando velhas construções, pesadas portas, janelas; fechaduras, aldravas e até mata-burros nas entradas de igrejas.  Minas é assim: tradição unida à modernidade.  Na fotografia, uma pitada de modernidade pode ser obtida, por exemplo, através de contrastes entre a sensação de eternidade e o frescor do “novo”.  Quem sabe, uma sexy modelo – não restaurada – junto de um centenário alambique?  Ou a jovem senhora, arrebitando-se com as pesadas panelas daquele fumacento fogão a lenha?
A região do ciclo do ouro mineiro é encantadora.  Plena de História, Arte, Mistérios, Emoções.  Santa Bárbara brilha como mini Ouro Preto.  Catas Altas tem grande dramaticidade, misteriosas montanhas, magnífico silêncio envolvendo a igrejinha de Santa Quitéria.  Muito a visitar, muito a ver.  Satisfação e placidez completam o cenário, dando gostinho de proximidade. 


Capela de Santa Quitéria, Catas Altas, MG.  Foto T.Abritta, 1996.

A presença da Fotógrafa nas imagens foi ótima ideia.  Não apenas traz mais calor e vida, como senso de escala para a grandiosidade das igrejinhas barrocas, algumas tão mal tratadas.
Fotografia é como um poema.  Depois de escrito pertence ao leitor-espectador que cria mil e uma interpretações.  Assim, uma imagem diz o que vemos – na imaginação, ou no frio recorte formado por cores e formas.  Tal um poema, também reflete a poesia de imagens imateriais.
Olhando mais detidamente algumas fotos, destaco, por exemplo, a de número cinquenta, com grande riqueza de cores e contrastes radicais: a aspereza e dureza da pedra suavizada pela maciez da modelo; a eternidade das portas e paredes gastas pelo tempo, com o olhar convidativo para explorar cada milímetro de calorosa sensualidade.  Chegamos até sentir a pele macia ao deslizarmos as mãos pelas rugosidades pedregosas. 
Já na foto sessenta e dois, a dramaticidade das montanhas é o grande manto que abriga a placidez, morada da imaginação, que muito faz acontecer sobre aquela laje de pedra, perdida na imensidão verde, marcada apenas pelo sorriso a decifrar.
Nos comentários finais deste ensaio fotográfico, abdico da neutralidade de espectador privilegiado, fazendo das palavras de Roland Barthes em O Prazer do Texto, as minhas palavras.

“Se leio com prazer essa frase, essa história ou essa palavra, é porque foram escritas no prazer.  Mas e o contrário?  Escrever no prazer me assegura – a mim, escritor – o prazer de meu leitor?  De modo algum.  Esse leitor, é mister que eu o procure (que eu o ‘drague’), sem saber onde ele está.  Um espaço de fruição fica então criado.  Não é a ‘pessoa’ do outro que me é necessária, é o espaço: a possibilidade de uma dialética de desejo, de uma imprevisão do desfrute: que os dados não estejam lançados, que haja um jogo.”

Atenciosamente,
Lázaro Lokovaks, Fotógrafo e Escritor.



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